Como construir uma Família Felina Feliz

A introdução de um gatinho em casa pode ser um processo delicado, sobretudo quando já existe um outro animal para partilhar o espaço.

0
2379
Mónica Silva, Enfermeira Grupo Hospital do Gato

É sabido que, nos dias que correm, existem uma crescente opção de ter gatos como animais de estimação. Se a sua personalidade independente é uma das primeiras razões que leva cada vez mais pessoas a adoptar estes fantásticos animais, há muitas vezes um posterior esquecimento de que as necessidades sociais diferem muito das nossas. São muitas as pessoas que, após o primeiro, pensam logo em ter mais um, mas a introdução de um novo gato pode ser um processo complexo e moroso para o qual donos conscientes e responsáveis se devem preparar antes mesmo de trazer para as suas casas um novo gato.

O que saber antes de adotar:

Ao contrário dos cães, os felinos não são animais gregários, e não se pode forçar um gato a gostar de outro. É claro que alguns gatos aceitam um recém-chegado com facilidade, mas existem alguns casos em que isto não se verifica logo. Na maioria das casas, os animais vão tentar gerir esta nova situação estabelecendo diferentes grupos sociais que vivem no mesmo território.

As perguntas que deve fazer a si mesmo antes de adoptar:

– Tem espaço, recursos e tempo suficientes?

– Terá o seu gato a personalidade adequada para aceitar outro felino? E o novo gato?

– O seu gato é muito territorial?

– O gato residente encontra-se uma idade de fácil adaptação a mudanças?

– A carência que o seu gato transmite é porque gosta de receber toda a atenção dos donos?

– O que acontecerá se as coisas não correrem bem?

 

A introdução de um gatinho é normalmente mais fácil do que a de um gato adulto. Para além de sexualmente imaturo, um gato bebé não representa uma ameaça tão grande para o residente como um gato adulto representaria. No caso de optar por um gato adulto, o mais importante é coma ajuda do seu médico veterinário, avaliar o temperamento dos gatos em causa. Por exemplo um gato dominante não deve ser adotado para uma casa onde exista um gato também dominante, por outro lado também não deve ser adotado para uma casa com um gato demasiado medroso.

De um geral optar por um gato de sexo aposto já esterilizado/castrado é uma melhor opção mas o temperamento de cada um e o modo como a introdução é feita é que dita a facilidade da convivência.

O olfato e a sua importância

“Diz-me como cheiras, dir-te-ei quem és!”

O odor individual de cada gato é o seu “cartão de apresentação” que usam para trocar mensagem entre si. A comunicação por sinais odoríferos é a forma mais importante de interação entre gatos. É através deste sentido os felinos trocam importantes informações como o sexo, idade, saúde, estado sexual e marcações/reivindicações territoriais.

O olfato é por isso o sentido mais importante no bem-estar do gato. Para facilitar a introdução de um novo animal, devemos torna-lo menos “estranho”. Para isto, podemos apresenta-lo ao gato residente com o “cheiro da casa”, basta, por exemplo, fazer algumas festas com luvas de algodão no seu gato e de seguida ao recém-chegado, ou usar uma manta do residente e espalhar o seu odor no pelo do gatinho adotado, mesmo antes deste se verem. Dar tempo a ambos os gatos para se acostumarem anos novos cheiros, é extremamente importante para a introdução ser mais tolerável.

1º passo: A introdução

Nos primeiros dias deve de se fechar o novo gato numa divisão da casa e só depois efetuar a apresentação. A interação entre gatos só deve começar após o veterinário avaliar o estado de saúde do novo animal.

Durante este período deve continuar a trocar cheiros entre gatos, recorrendo à utilização mantas por baixo dos comedouros que deve ir alternando entre eles, e à trocar de mantas/camas de descanso. Quando nenhum dos gatos de mostrar desconfortável com o cheiro do outro, deve transferir o gato recém-chegado para uma divisão em eles se possam cheirar diretamente por baixo da porta.

2º passo: A apresentação

A apresentação deve ser efetuada com recurso a uma transportadora. Este método permite que os gatos se sintam seguros e evita perseguições e ameaças que podem comprometer o sucesso da relação. Na transportadora os gatos estão próximos para se cheirarem e conhecerem, mas ao mesmo tempo esta proporciona proteção.

– Colocar o gato adotado na transportadora e situa-la no meio de uma mesa sem risco de queda;

– Deixar que o gato residente entre na divisão, dando-lhe atenção e confiança;

– Se o gato residente não mostrar interesse na transportadora, não o deve forçar;

– Pode usar-se “snacks” para tornar a experiência mais positiva e para incentivar a presença um do outro. Contudo não devem obrigar o seu gato a aproximar-se da transportadora para os adquirir. A alimentação não deve ser usada nesta fase, pois o gato residente poderá ganhar-lhe aversão.

– No caso do gato residente mostrar sinais de agressividade, deve tentar distraí-lo com um ruído que não o assuste, e continuar a falar-lhe de modo calmo e meigo e retirar a transportadora do local;

– Após este primeiro contato deve de se retirar o gato residente da divisão e deixar o adotado sair da transportadora.

Deve-se repetir este procedimento durante vários dias. Durante processo pode-se começar a alimentar ambos os gatos. Nos primeiros dias podem existir alguns sinais de agressividade em ambos os gatos, que gradualmente se vão alterando para demonstrações de curiosidade e aceitação individual.

“Dar tempo ao tempo”

Se em algum ponto da introdução ou apresentação os gatos demonstrarem comportamentos de demasiada tensão ou agressividade extrema, que pode mesmo ser redirecionada para os donos, deve parar de imediato e voltar um passo atras. Deve de estar preparado para abrandar ou recuar alguns passos se necessário. O importante é nunca apressar o processo.

 3º passo: O primeiro contacto

Quando nenhum dos gatos demonstrar qualquer sinal de agressividade para com o outro, e se achar que é o momento adequado para abrir a transportadora, deve continuar a recorrer à alimentação como uma distração. No entanto, nesta fase a alimentação deve ser feita longe um do outro. Mantenha-se calmo e fale com eles, premiando os comportamentos adequados com “snacks”. A divisão escolhida deve permitir que eles se escondam caso tenham essa necessidade. Deve manter sempre uma boa supervisão e pode ser necessário voltar a separa-los e repetir este processo durante alguns dias.

A partir do momento que nenhum dos gatos demonstre agressividade, indícios de luta ou perseguições, deve dar-lhes acesso a todas as divisões. No início é muito provável que cada um tenha lugares distintos para dormir. Eles criam “territórios” individuais que lhes permitam viver pacificamente na mesma casa e beneficiar da alimentação, atenção e calor. Só gradualmente é que se vão acostumando e aceitando um ao outro. É por isso muito importante que os recursos ambientais aumentem também. A regra de existirem recursos “igual ao número de gatos, mais um” aplica-se a caixas de areia, comedouros, bebedouros, arranhadores e locais de descanso. Disponha vários brinquedos pela casa, pois os gatos podem não começar logo a brincar um com o outro. Evitar a competição por recursos ajudará muito para uma aceitação conjunta. Terem esconderijos secretos é essencial para que se sintam seguros. Então não tente descobrir todos os locais onde os seus gatos se escondem. Estas premissas devem manter-se a longo prazo. É de extrema importância manter territórios separados, que cumpram todas as necessidades de cada gato, com base nos locais onde estes mais gostam de estar.

“A recompensa de uma coisa bem feita, é tê-la feito”

O processo pode durar um ou dois dias, mas também pode durar várias semanas até que se tolerem um ao outro. Um ambiente relaxado entre os dois pode demorar vários meses para se conseguir, mas conviverem pacificamente indica-nos que estamos no caminho para o sucesso.

O mais importante do processo é ter consciência de que o nosso gato não vai correr para o novo gato de “braços abertos” e acolhê-lo como nós gostaríamos. Uma apresentação cuidadosa e paciente é crucial para um início harmonioso de uma vida em conjunto.

No final, verá que tudo valeu a pena, pois terá uma família felina feliz!

 

Deixe uma resposta

Por favor insira o seu comentário
Por favor insira o seu nome