Projeto Gato Francisco, Braga

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Francisco

Estava numa paragem de autocarro, não acredito que com destino certo. Esquelético, chumbado em água e praticamente congelado, isso de certeza – naquela manhã chovia a potes e o frio rachava. Ao passar de carro vi-o.

Fui tomar o pequeno-almoço ao café do costume. Um galão a ferver e um pão com pouca manteiga, também como de costume. O ar condicionado debitava uma quente e agradabilíssima sensação de bem-estar.

Era dia de S. Francisco de Assis, padroeiro dos animais – para aqueles que não ligam puto a essas coisas informo que celebra no dia 4 de outubro. E nesse dia o pequeno-almoço não me soube como de costume. A imagem do gato azedou-me a refeição, que habitualmente me sabe pela vida. Mas fiquei consolado com o pensamento de o encontrar.

Do pensar ao agir foi o tempo de pagar a azedada refeição e de dar um salto até à tal paragem de autocarro, coisa aí para uns cinquenta metros e garantia de chuvada nos ossos. E lá estava ele, tipo escultura de gelo, daquelas que vemos nos concursos dessas coisas. Não foi difícil apanhá-lo. As esculturas de gelo derretem devagar.

Levei-o de seguida a quem percebe de assuntos veterinários. Após o julgamento, a sentença: prisão domiciliária até ordem em contrário. Explicou o juiz de turno: está muito fraco, só pesa quatrocentos gramas e pode morrer. Só me faltava esta, estava tão bem quietinho! – ouviram os meus botões.

Bem, vou despachar a coisa para o gatil municipal, a ver se não perco a aula de RPM, a das 11h, no ginásio do costume. Nada feito. Aos fins de semana os gatos podem virar esculturas de gelo. Ordens superiores – exclamaram os funcionários. Lá se foi a aula de RPM e o raio do gato foi mesmo cumprir a medida de coação para minha casa, e ainda por cima sob minha custódia.

Improvisei, no sofá da sala, uma cama com uma manta – daquelas com que a BP, na troca de pontos, brindava os clientes. No primeiro dia só me lembro de ver o bicho a dormir submerso numa quente e agradabilíssima sensação de bem-estar, imagino que do tipo da que senti no café do costume na manhã em que o vi pela primeira vez.

Ao segundo dia fez-se luz dia e acho que o gato – na altura ainda sem nome – já dava por adquirido que eu era o seu melhor amigo. Não sei se merecia tal demonstração de afeto por parte do animal. O que sei é que a partir daquele 4 de outubro as aulas de RPM, do costume, deixaram de ter assim tanta importância.

Foram necessários quatrocentos gramas. Sim, esse foi o tempo que levei a encontrar o Francisco, nome que lhe dei em estima pelo padroeiro dos animais. Agora, passadas seis mil gramas, vemos juntos o Jornal das 9 na SIC Notícias, todos os dias – como de costume. Ele no meu colo. E os dois no sofá da sala, no mesmo onde pela primeira vez o Francisco encontrou descanso.

Espero que se sinta um gato feliz e que eu seja mesmo o seu melhor amigo.

PS – Até que se tenha amado um animal, uma parte da nossa alma permanece adormecida.

Vença a indiferença. Alimente a sua alma.

Projeto de voluntariado. Página FACEBOOK

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