E quando o gato arranha! Ups…

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Maria João Dinis da Fonseca - Grupo Hospital do Gato

Zoonoses são doenças transmitidas entre o Homem e os animais. O convívio cada vez mais próximo que temos com os nossos animais de companhia, aumenta a prevalência destas doenças.

É portanto necessário, que quer profissionais de saúde quer proprietários, se mantenham informados. Já pensou que as epidemias da história das doenças infeciosas estão sempre associadas a zoonoses? Desde a Peste, até recentemente ao Ébola. As doenças zoonóticas são uma área de investigação muito interessante, pois os agentes infeciosos, como bactérias e vírus, vão-se adaptando às diferentes espécies de diferentes modos ao longo do tempo. Vamos aqui dar inicio a uma rubrica sobre zoonoses associadas aos gatos, sobre as quais todos os donos devem ter um conhecimento básico, sobretudo para saberem como prevenir tais doenças. Lembre-se sempre que o convívio com os animais de estimação é seguro e benéfico para a nossa saúde e que as zoonoses nunca são motivo de exclusão dos mesmos dos nossos lares, são apenas um assunto que se devemos conhecer para melhor prevenir.

A doença do arranhão do gato

A doença do arranhão do gato é uma doença do Homem associada como o nome indica a um ou mais arranhões do gato, e é provocada por uma bactéria chamada Bartonella henselea.

Como se transmite?

São as pulgas que infetam o gato, quando o picam para se alimentarem. Por sua vez o gato infecta o Homem quando, mesmo que inadvertidamente, o arranha. Mas o gato não transmite a bactéria diretamente. São as pulgas transmissoras, que ao eliminarem esta bactéria nas suas fezes, fazem com que existam bactérias no pêlo do gato e também nas unhas. E são estas bactérias que são inoculadas na nossa pele aquando de um arranhão. A bactéria em causa consegue sobreviver nas fezes da pulga durante cerca de uma semana. Mais raramente a doença também pode ser transmitida do gato ao Homem por mordedura ou lambedura de uma ferida já existente. As carraças, ainda que mais raramente também podem ser transmissoras desta bactéria.

Sintomas no gato

Estima-se que cerca de 40% dos gatos está infetado com esta bactéria ou pelo menos já teve contacto com a infeção. No entanto apenas uma pequena percentagem de gatos fica doente, sendo o mais frequente serem gatos perfeitamente saudáveis. No caso de surgirem sintomas no gato, estes são variáveis, mas os mais reportados são problemas oftalmológicos e cardíacos.

Sintomas no Homem

Após o arranhão do gato, existe uma reação local, mais ou menos exagerada, com ou sem a presença de uma pápula. Mas é cerca de 1 a 3 semanas após, quando já a lesão original está sarada, que a doença se manifesta. Os sintomas variam, mas o mais característico é um aumento marcado dos gânglios linfáticos regionais. Por exemplo se a pessoa for arranhada na mão os gânglios debaixo do braço aumentam. Este aumento dos gânglios é normalmente acompanhado de sintomas mais inespecificos como febre e dores musculares. Neste caso é muito importante ir ao médico, que decidira da necessidade de prescrever um antibiótico específico para que a doença seja tratada. Nem todas as pessoas que são infetadas ficam doentes, um sistema imunitário “em forma” consegue frequentemente evitar os sinais clínicos e debelar a infeção.

Donos imunodeprimidos

Quando se fala de zoonoses, a questão dos donos imunodeprimidos é sempre uma questão pertinente. Se o proprietário sofre de Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) ou se apresenta o sistema imunitário deprimido por outras razões (como por exemplo tratamentos quimioterápicos), os cuidados devem ser mais reforçados. No site do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) existem “Guidelines” (linhas de orientação) muito especificas para estas situações (http://www.cdc.gov/healthypets/specific-groups/index.html). O convívio com os animais de estimação pode ser mantido, apenas há que ter mais cuidado, tal como há que ter cuidado com outras rotinas do dia a dia.

Quais os gatos que transmitem a doença e cuidados para a evitar

A transmissão da infeção é apenas através das fezes da pulga ou seja mesmo que o seu gato seja portador, apenas vai transmitir a bactéria em causa se a pulga surgir no ciclo. Assim é fácil perceber que um bom controlo de pulgas é a chave para a prevenção desta zoonose.

Posso saber se o meu gato está infetado?

Não existe nenhuma vantagem em realizar análises para saber se o seu gato é portador desta bactéria. A pouca utilidade deste despiste, tem a ver com o facto dos resultados obtidos não serem de interpretação linear. Mais uma vez reforço que a chave para evitar esta zoonose está no controlo das pulgas.

Todos os gatos devem fazer prevenção de pulgas?

Todos os gatos com acesso à rua e/ou que convivam com cães que vão à rua devem fazer prevenção de pulgas. Casas com vários gatos e com habitantes imunodeprimidos também devem por rotina realizar prevenção. Se o seu gato é o único animal da casa e é exclusivamente indoor (de casa), nesse caso o melhor é aconselhar-se com o seu médico veterinário, que após avaliação da situação, decidirá sobre a necessidade ou não de realizar prevenção. É extremamente frequente gatos indoor apresentarem-se à consulta com pulgas, isto porque através dos nossos sapatos podemos levar para casa ovos de pulga, logo o facto de ser indoor não significa livre de risco.

Que desparasitante externo usar?

Existe no mercado uma variedade muito ampla de produtos para pulgas: sprays, spot-on (pipetas), coleiras e mesmo produtos para administração oral e injetável. Quando se escolhe um produto para pulgas há por um lado que atender às resistências documentadas das pulgas a determinados produtos, e por outro perceber qual é que é de mais fácil administração. Se há gatos a quem facilmente se põe uma pipeta há outros que fazem reações locais e aos quais poderá estar mais indicado administrar um produto oral. Lembre-se sempre que para além de controlar as pulgas no gato, é essencial, sobretudo em caso de infestações importantes, colocar um produto em casa, para fazer também um controlo dos ovos já existentes no ambiente. Em caso de gatos outdoor para além de pulgas é necessário prevenir carraças.

O meu gato arranhou-me, devo ir ao médico?

Após um arranhão lave abundantemente a ferida com água e sabão antisséptico (o sabão azul e branco é uma boa alternativa) e aplique um desinfetante local. Se a ferida não cicatrizar devidamente ou se passadas 1 a 3 semanas, notar alteração do estado geral, deve consultar um médico e reportar o que aconteceu.

Como evitar que o meu gato me arranhe?

Perceber o porque:

-A arranhadela “quero brincar contigo”: na maioria das vezes as arranhadelas reportadas pelos donos são durante as brincadeiras. É essencial que o seu gato perceba que os seus dedos não são brinquedo. Isso consegue-se evitando desde cedo as brincadeiras diretamente com as mãos. Canas, pequenos ratinhos e bolas são ótimas alternativas para ter sempre “à mão

-A arranhadela “deixa-me em paz”: é importante perceber os primeiros sinais de desconforto do seu gato. Antes do arranhar ele já demonstrou que não está satisfeito com a situação. Pode é ter sido de uma maneira mais subtil que lhe passou despercebida. Por exemplo se está a fazer festas ao gato e ele começa a dar à cauda, muda a posição das orelhas, ou a expressão do olhar está na altura de parar;

-A arranhadela “quero caçar”: se o seu gato o arranha nas esquinas das divisões como se andasse à caça, provavelmente precisa de mais enriquecimento ambiental em casa. Os temas da linguagem corporal e do enriquecimento das casas são temas estruturais quando falamos de gatos, já falamos de casas gateiras na edição de janeiro e iremos voltar ao assunto em breve.

No caso de gatos sem acesso à rua pode manter as unhas cortadas. Habituo desde gatinho a cortar as unhas. Em gatos com acesso à rua esta pratica não é recomendável.

E PARA CONCLUIR

A doença do arranhão do gato é uma zoonose frequente, mas pouco reportada. Felizmente que na maioria das vezes a sua apresentação é benigna e de fácil tratamento. A prevenção das pulgas e a compreensão do comportamento do gato, são a chave da prevenção desta doença. Regresso ainda em abril até lá bons momentos felinos.

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