Gato para que te quero??!!

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Helder Ferraz

A companhia dos animais é, na vida quotidiana de muitas pessoas, algo fundamental, e em muitos casos certamente que a família não se sente completa sem que a eles se faça referência.

São várias as personalidades que mantêm relações especiais com animais e que não deixam de lhes fazer uma vénia, ora pelo exemplo de dedicação, ora pela companhia. Não há dúvidas que as ligações afetivas desenvolvidas são capazes de ultrapassar, em certa medida, os diferentes conceitos de amizade que acontecem entre seres humanos.

O professor Agostinho da Silva nutria uma profunda admiração pelos gatos. A discrição com que conduziu a sua vida, especialmente no que respeita à dimensão privada, não o impediu, por variadas vezes, de referir a importância que os gatos tiveram na sua vida. O homem que enfrentou o regime salazarista recusando respeitar a “Lei Cabral”, o que lhe custou a demissão das suas funções de professor do ensino público, e que manteve durante o ano de 1990 um programa televisivo (os episódios podem ser encontrados no youtube) com o título de Conversas vadias, no qual demonstrou um pensamento extraordinário, crítico e subversivo, contrastante com as linhas orientadoras da sociedade portuguesa de então (e arrisco dizer, de hoje), não só manteve toda a vida a companhia de gatos como se conta que os alimentava pelas ruas, e escreveu assim:

“Minha gatinha João
Do jeito que hoje te vi
Muito mais tu me proteges
Do que te protejo a ti”.

E, se Agostinho da Silva apreciava a companhia dos gatos, o famoso poeta português Fernando Pessoa parecia antes ser mais um contemplador das suas peculiares características. O simbolismo que o gato assume nos seus pensamentos aparece nos seus escritos. Fernando Pessoa não deixou de registar, por exemplo no Livro do Desassossego, mas também através da sua poesia: a destreza; a felicidade; e a ousadia dos gatos, como é disso prova o poema “Gato que brincas na rua”:

“Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu”.

É também com recurso aos gatos que Fernando Pessoa no poema “Dois gatos numa grande discussão” estabelece um paralelismo com o comportamento humano, entre a irreverência e a insensatez da juventude e a sapiência que a idade avançada deve trazer.

E, quando me refiro à sapiência que a idade avançada deve trazer, é precisamente porque quero introduzir neste texto, o intragável e genial Charles Bukowski. Bukowski foi viciado em álcool e mulheres, e só aos 51 anos viu a sua obra reconhecida sem que, mesmo assim, tivesse temperado os ânimos. Mas, nos 23 anos entre o início da fama e a sua morte, fomos contemplados com um livro escrito por ele dedicado aos gatos, cujo título é precisamente “Sobre Gatos”. Bukowski tinha muitos gatos e deixo-vos o excerto do poema “Os meus gatos”:

“(…)

quando estou a sentir-me

em baixo

tudo o que tenho a fazer

é observar os meus gatos

e a minha

coragem

regressa.

Eu estudo estes

animais.

Eles são os meus

professores”.

Mas, não só os professores e os poetas encontraram companhia e inspiração nos gatos.

Groucho Marx, por exemplo, recorreu ao humor para com simplicidade e perspicácia desmistificar a carga negativa que os gatos negros carregam sobre si há demasiados séculos. Numa frase brilhante que diz assim, “um gato preto a atravessar o meu caminho significa que o animal vai a algum lado”, Groucho Marx consegue descomplicar o que a superstição, devido ao facto dos gatos serem misteriosos e terem hábitos notívagos, tanto mal lhes causou. É por isso, e Groucho não discordaria, que uma frase com piada pode evitar longas e pesadas discussões, e perdas de tempo também.

Socorro-me, para terminar este texto, de um excerto de uma entrevista do Ricardo Araújo Pereira, que também deve apreciar Groucho Marx:

“(…) Quando, há pouco tempo, passei a ter um gato, comecei a perceber a razão do fascínio. De facto, é um bicho que nos despreza de uma forma muito elegante.

Está evidentemente convencido da sua superioridade em relação a nós e é capaz de ter razão. Mas continuo firme no meu entusiasmo em relação aos cães.

Os gatos sabem qualquer coisa; os cães são tão estúpidos como eu o que lhes dá um encanto muito especial. Os gatos parecem ter uma informação importante acerca do que é isto de estar vivo; os cães não fazem ideia do que andam aqui a fazer(…)”.

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