Entrevista a Pedro Cascais, The Crazy Cat Gentleman

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O cognome é o que atribui a si mesmo. E são poucas as pessoas que não conhecem o seu trabalho com gatos abandonados em Setúbal e a quem recorrem sempre que surge alguma situação mais complicada.

Pedro Cas, como é conhecido, acolhe animais em perigo, promove a sua esterilização e adopção e tem conseguido salvar muitas vidas felinas em situações extremas.

“A culpa da minha paixão por gatos foi da minha primeira gata, a Yufi, agora com 9 anos, que foi resgatada da rua com poucas semanas de vida por uma senhora. Essa vizinha detectou que havia uma ninhada em risco, recolheu-a e amamentou os bebés a biberão até os começar a dar para adopção. Eu fiquei com uma que ninguém queria, porque era tricolor, ao passo que todos os outros eram amarelos. A partir do momento em que essa gata me entrou em casa, passei a ver gatos em tudo o que era sítio.”

Pedro ficou sensibilizado para o número de animais abandonados pelas ruas de Setúbal “porque um dia, ao passar junto ao rio, vi 3 ou 4 gatos a apanhar Sol e lembrei-me de ir ao supermercado comprar uns patés para lhes dar”. A partir desse momento não conseguiu deixar de voltar àquele local e levar uns petiscos.

“Vim depois a descobrir que esta era uma colónia de gatos, das muitas que existem por toda a cidade, e passei a levar comida a todos. Percebi também que não bastava alimentar, mas era essencial esterilizar estes animais para controlo da população. E foi assim que há nove anos alimento, recolho, esterilizo e coloco para adopção os gatos que encontro” refere Pedro Cas

Num espaço adaptado existem cerca de 30 gatos para adopção, que este Cat Gentleman designa como ‘Malinho & Companhia’, e nas colónias que alimenta e segue “são entre 100 a 120 gatos, porque depende das colónias”.

O Malinho é quase que o ex-libris do abrigo, “foi abandonado com cerca de seis meses, com outro gatinho que não sei se era irmão de ninhada ou afectivo. Deixaram-nos na minha rua e o outro gatinho foi logo atropelado. Mas o Malinho foi sobrevivendo até ao dia em que o recolhi para ser adoptado, mas continua comigo.”

Luta quotidiana

Apoios para este monumental trabalho não são muitos. “Lanço pedidos pelo facebook, rifas, etc. Vou recebendo ajudas de amigos, quer em dinheiro que ajuda a pagar os tratamentos e as alimentações especiais, quer também em géneros, por parte de pessoas que apoiam o trabalho que faço.”

Relativamente ao tratamento dos animais “por vezes conto com ajuda de algumas pessoas amigas, mas sou eu quem diariamente trata deles” e tem ainda parcerias “com uma clinica veterinária em Setúbal e outra fora da cidade, onde levo os gatos a tratar, esterilizar, enfim, o que eles necessitam. É uma despesa enorme todos os meses, que chega a atingir os 1.000 a 1.500 euros apenas em veterinários.

E tenho de conseguir aguentar, por eles, porque nem sempre há ajudas, até porque muitas pessoas também têm casos complicados, colónias a alimentar e esterilizar e o dinheiro não estica, mas são eles quem precisa de ajuda.”

E como lhe chegam esses pedidos? “Pelo facebook, por mensagem privada, ou através do meu telemóvel, que praticamente toda a gente conhece, e sabem que devolvo sempre a chamada. Ou como também já me aconteceu, batem à minha porta a dizerem que ‘está um gato na rua’ e lá vai o Pedro recolher mais um. Também já tem acontecido chegarem à minha porta com gatos que não podem ter em casa, que já não querem, ou em que a dona/o morreu ou foi para um lar, e um gato é sempre o ‘descartável’ no meio da herança.”

Falta de apoios institucionais

Lamenta que a autarquia sadina não promova mais apoios a cuidadores e associações “embora esteja a promover as campanhas de CED – Captura, esterilização e devolução, feitas pelo canil de Setúbal, mas que ainda não chegam a todas as colónias nem a todos os cuidadores” e critica ainda a política de proibição de alimentar animais errantes.

“Os fiscais ameaçam as pessoas de multas porque faz parte do regulamento municipal, decidido em Assembleia Municipal, a proibição de alimentar os animais. Os funcionários têm também ordens para destruir os abrigos que muitos voluntários constroem nas colónias, o que é lamentável.”

Esta luta pelo bem-estar animal não tem sido sempre pacífica. Em 2013 “tive um confronto com a autarquia porque, de um momento para o outro, decidiram apanhar tudo o que eram colónias de gatos. Até àquele momento não havia capturas de gatos errantes, mas naquele ano foram apanhados praticamente todos os gatos de colónias.

Perante isto “inquiri a Câmara Municipal sobre o destino dos animais, ao que me responderam que os gatos eram recolhidos no canil/gatil, esterilizados e colocados para adopção”. Na opinião de Pedro, essa informação não correspondia à realidade, porque o Centro de Recolha não tinha quem fizesse esterilizações e os animais eram assilvestrados, logo muito dificilmente seriam adoptados. “Por isso, de uma assentada, tirei 15 gatos de lá, esterilizei e devolvi-os às colónias. Este assunto chegou na altura às televisões e as coisas mudaram um pouco.”

«As pessoas só querem adoptar gatos bebés»

Embora admita que tem sempre conseguido adoptantes para os animais que recolhe, sendo na sua maioria adultos, essa adopção é sempre mais difícil “porque toda a gente me pede gatos bebés. As pessoas não têm noção que um bebé é uma ‘caixinha de Pandora’, ao passo que um gato adulto tem a sua personalidade definida e já sabemos o que esperar dele.

Sabemos se tolera crianças, festas ou colo, outros animais, etc. enquanto um gatinho bebé pode tolerar isso a determinada altura, mas depois mudar.

Felizmente ainda vou tendo pessoas que me pedem adopção de jovens adultos e outras que me pedem bebés mas que, depois de conversarmos, compreendem que essa não é a melhor opção e acabam por adoptar um gato adulto.”

Os gatos pretos também não são desejados. “Tenho agora o caso de um gato que me apareceu para tratar, mas nem sequer vou por alertas ou pedir donativos, porque já sei que não vão aderir.”

Para evitar futuros abandonos, “antes da adopção faço uma triagem, peço que o adoptante preencha uma ficha de adopção e faço por seguir depois a vida do animal na nova casa. No entanto, deixo sempre uma porta aberta para que, se algo não correr bem, o animal me volte às mãos.

Regra geral as adopções têm corrido bem, embora já me tenham devolvido alguns gatos. E gosto que as pessoas que mos adoptem enviem fotos e noticias da sua adaptação.

Acaba sempre por ficar um bocadinho deles comigo.”

Apesar de a intenção seja sempre a de que o animal fique entregue a uma nova família, Pedro Cas não esconde como isso lhe custa.

“É horrível. Absolutamente horrível. Cada vez mais é difícil conseguir lidar com isso e ainda por cima quando são gatos que ficaram anos e anos à minha guarda à espera de adopção. É muito difícil deixá-los ir, mas é também um sentimento de alegria e de alívio porque sei que vão para boas casas, porque deixam de viver num abrigo, que não é igual a terem uma família, e que passam a ter a atenção que merecem.

E após cada adopção, fico também com disponibilidade para receber outro animal, a quem posso salvar a vida. Já aconteceu ir levar uma gata para uma nova casa, e no regresso para Setúbal, passei por uma loja de animais onde estava uma outra gatinha bebé para adopção, numas condições que não achei ideais, e como tinha uma transportadora vazia no carro…”.

Casos complicados

Pedro Cas não se limita a cuidar das colónias e de animais abandonados, e ao longo dos anos têm-lhe chegado às mãos alguns casos horrendos, de animais vítimas sobretudo da maldade humana.

O caso do gato Thunder é disso exemplo. Em Março de 2017 chegou-lhe um alerta de um trabalhador na Lisnave para um gato que teria sido queimado com um maçarico industrial.

gato Thunder

Conseguiu recolher o animal, “foram meses e meses de tratamento, quer à zona de pele queimada, que se situava junto à cauda, quer ainda pelos ferimentos que causou a si próprio ao tentar apagar as chamas do pêlo no focinho, uma cicatriz que ficará com ele para sempre. Felizmente recuperou totalmente de todas as lesões que sofreu, foi adoptado e tem a companhia de mais dois gatos na sua casa.”

Na mesma zona industrial, e mais recentemente, foi salvo o Oliver “com apenas 6 meses, foi envenenado, o que tem acontecido com uma enorme frequência no último ano. Alguns morreram, outros consegui salvar e recuperaram.

gato Oliver

Ali matam os gatos sobretudo ao fim-de-semana, altura em que os funcionários habituais não estão lá para os proteger. Felizmente o Oliver foi tratado, sobreviveu, e está completamente recuperado, agora só lhe falta aquilo que ele quer mais: uma casa e uma família que o ame para o resto da sua vida.”

Outro caso mais recente é o de Jonas “que foi abandonado numa zona de mato à saída de Setúbal pela própria tutora, já com a cauda ferida e a necrosar. O gato viveu nessa zona e com as feridas durante cerca de seis meses, até que alguém o viu, sinalizou e pediu-me ajuda para o recolher. Foi tratado, a cauda teve de ser amputada, mas recuperou e foi também adoptado.”

Gato Jonas

Está também no Abrigo o Xavier, gato sénior “que a dona queria eutanasiar porque sofre de obstrução urinária, e tem de comer uma ração especial para o resto da vida. Esse é o gato que só quer abraços, colo e beijinhos.”

Outra história que recorda, “logo quando comecei a cuidar dos gatos, foi uma gata preta que foi apanhada com a coleira presa entre o pescoço e a axila, não conseguindo colocar a pata no chão. Apareceu-me assim numa colónia, e estava completamente em pânico, não deixava ninguém aproximar-se. Consegui apanhá-la com uma armadilha e quando a levei à clinica já tinha o material da coleira enterrado no corpo. Foi tratada, recuperou e foi adoptada.

Dei-lhe o nome de ‘Coleirinha’. E no seguimento desta, acabei por baptizar muitos dos gatos consoante as situações em que foram encontrados ou do seu feitio.”

Esse é o caso da ‘Bufanita’, “uma gata bebé que andou a servir de bola de futebol num bairro aqui de Setúbal e me veio parar às mãos com uma hérnia diafragmática, foi operada e correu tudo bem, apesar de ter sido uma cirurgia de risco. Mas ela ficou para sempre com receio dos humanos e não se deixa tocar, bufando imenso, pelo que dificilmente será adoptada.”

Os casos sucedem-se em nove anos que Pedro Cas se dedica a salvar os animais errantes, histórias que pode conhecer na sua página no facebook.

Justiça ainda não funciona

Em alguns destes casos tem tentado recorrer à Justiça, sem resultado. “Dos vários casos de que apresentei queixa formalmente, nenhum chegou sequer a tribunal. São todas arquivadas pelo Ministério Público.

A última dessas foi relativa ao Jonas, o gato abandonado com a cauda necrosada, que foi arquivada pelo Ministério Público ao fim de um ano da queixa, porque havia dúvida sobre quem teria abandonado o animal.

Até hoje apresentei 5 queixas, 3 delas foram arquivadas ao fim de cerca de um ano e 2 não chegaram sequer ao MP.”

Apesar da legislação que alegadamente pune quem abandona, os animais continuam a ser descartados. “Até há cerca de dois anos, havia alguma sazonalidade, se assim lhe pudemos chamar, na época de mais abandonos, normalmente na altura do Verão, a partir de Maio. Hoje em dia aparecem animais abandonados em qualquer altura.

São abandonados porque miam, porque brincam, ou porque não combinam com a cor dos cortinados.”

Mesmo perante todos os desafios, Pedro Cas não pretende abandonar esta luta. “Por eles é preciso continuar a batalhar. Todos os dias aparecem casos novos, todos os dias há animais a precisar de auxílio.”

Angariação de Fundos

Pedro Cas lançou, entretanto, uma campanha de angariação de fundos com a seguinte mensagem:

“No próximo dia 15 de Junho completo mais um aniversário e, desta feita, gostaria que me ajudassem a alcançar a quantia de 720 euros que reverterá na totalidade para o Malinho e companhia, os 30 gatos que tenho para adopção. Este valor permitirá comprar-lhes ração para os próximos 6 meses, permitindo-me assim canalizar outros donativos para o pagamento de despesas veterinárias de outros gatos resgatados, sem passar pelo suplicio de, todos os meses, ter que apelar para a compra da ração do Malinho e companhia. Tendo eu 4400 amigos aqui no Facebook, basta que apenas 720 deles doem 1 euro apenas para conseguir angariar esta quantia e assim garantir que o Malinho e companhia terão ração até ao final deste ano. Não peço para mim, mas por eles e para eles. Só peço que me ajudem a ajudá-los. E custa assim tanto ajudar com tão pouco?”

Pode colaborar ou conhecer os gatos deste CrazyCatGentleman através do facebook, em https://www.facebook.com/PedroMLCas

2 Comentários

  1. Gostei muito desta reportagem. Também faço o que posso no acolhimento de gatos que encontro abandonados ou que me entregam à porta. Mas contrariamente ao Pedro tenho imensa dificuldade em os dar para adopção e eles vão ficando…ficando. Neste momento tenho 23. O Pedro merece a divulgação. Oxalá ela resulte em mais ajudas.

  2. Conheço o trabalho do Pedro Cas pelo facebook e adorava que ele tivesse mais apoios, pois tudo é para salvar e cuidar esses anjinhos. O Pedro já fez milagres na recuperação de gatinhos que pareciam condenados. Parabéns Pedro Cas e muita força para continuar. Pessoas, ajudem o Pedro para o seu nib que vem na sua página. Eu ajudo sempre que posso.

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