Burnout ou esgotamento profissional: um problema que preocupa a medicina veterinária

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O Vetbizz, encontro de profissionais de medicina veterinária, teve lugar no passado dia 10 de outubro numa altura em que o burnout/esgotamento profissional já atingiu de forma preocupante este sector. Em Portugal, este problema regista valores alarmantes de risco, deixando o alerta para a importância da sua prevenção e combate.

Para analisar e compreender melhor este tema, a MIAU Magazine conversou com a enfermeira veterinária Marília Domingos e com o médico veterinário brasileiro Sérgio Lobato.

Enfermeira veterinária Marília Domingos (Foto credit: Veterinária Atual)

Marília Domingos apresentou no passado dia 10 de outubro um projeto de comunicação no âmbito da sua intervenção no Centro para o Conhecimento Animal (CPCA). Além de prestar apoio a profissionais de medicina veterinária a sofrer de burnout, pretende consciencializar estes profissionais para um tema que ainda é um pouco ‘tabu” dentro da classe. A iniciativa ‘Mente Sã, Vet São’ foi criada a pensar nas necessidades daqueles que tantas vezes pensam pouco em si próprios enquanto se dedicam ao bem-estar dos animais: o médico veterinário e o enfermeiro veterinário.

Sérgio Lobato, médico veterinário brasileiro (Foto credit: Veterinária Atual)

Sérgio Lobato é um médico veterinário especialista brasileiro, reconhecido em todo o mundo pela sua experiência e luta pela mudança deste setor, em especial em torno da incidência do burnout na profissão. O especialista também esteve em Portugal participar no Vetbizz.

MIAU Magazine – Quais as principais causas do Burnout/esgotamento profissional?

Enf. Marília Domingos: O Burnout é uma síndrome multifatorial e todos os fatores que para ela contribuem têm a sua importância. O desenvolver do Burnout está intimamente relacionado com a forma e o ambiente em que se trabalha: excesso de carga de trabalho, falta de controlo sobre o trabalho que se está a desenvolver, ausência de possibilidade de progredir na carreira, não ser reconhecido ou recompensado por um bom trabalho, deterioração da relação entre colegas e com a chefia, tempo de descanso insuficiente, dificuldade em estabelecer um equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, remuneração insuficiente ou pouco satisfatória, entre outros fatores.

Dr. Sérgio Lobato: Como entendo o Burnout como uma resolução final decorrente de um quadro bem mais amplo, coloco em primeiro lugar a visão romântica da profissão, que nos é incutida o tempo todo desde a graduação, que devemos salvar TODOS os animais, e com isso não nos preparamos para entender a visão de vida e morte. A falta de valorização do próprio profissional tem sido algo assustador nos últimos anos, quando por questões de crise económica baixam o valor das suas consultas e a qualidade dos seus procedimentos, o que, numa época de “tribunal Facebookiano” é um risco pois qualquer falha é exposta e as consequências são graves. E a falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional é um fator muito importante com as escalas de trabalho suplantando escalas de lazer, tornando a vida uma monotonia perigosa com desgastes físicos e emocionais graves.

MIAU MagazineSe e em que medida ou de que forma, poderá o tutor de um animal ajudar a diminuir estes casos?

Enf. Marília Domingos: Os médicos e os enfermeiros veterinários estão expostos, diariamente, a fatores stressantes que os predispõem ao desenvolvimento de uma situação de esgotamento. Os tutores podem ajudar a diminuir a incidência destes casos, valorizando e respeitando os profissionais. Compreender que um médico veterinário é, em primeiro lugar, um ser humano! Pode cometer erros, mas dá o seu melhor. Compreender que o amor pelos animais não paga contas e, como em todas as profissões, os serviços prestados têm de ser pagos. Compreender que pedir opiniões médicas pelo Facebook, de forma gratuita, é desvalorizar o profissional e o seu trabalho. Compreender que questionar a opinião médica do profissional, com base no que se leu na Internet, é desvalorizar o investimento feito pelo profissional na sua formação. Compreender que o médico veterinário também merece ir de férias e ter folgas semanais e, para além disso, tem direito a não ser abordado durante estes períodos de descanso. Compreender que o profissional também tem família, filhos, marido ou mulher e que tem direito a passar tempo com eles.

Dr. Sérgio Lobato: Eu costumo dizer…Eduque o seu cliente antes que ele adestre você! A falta de educação para a relação profissional por parte dos médicos gerou a sensação de quem comanda as regras técnicas e o bom andamento da clínica é um fato grave. Devemos começar a entender que o cliente deve olhar para o médico veterinário como um profissional dedicado que estudou e estuda anos para melhor atender seus pacientes e merece respeito. Uma campanha de cunho educacional deve ser muito bem direcionada o quanto antes!

MIAU Magazine – Consideram importante o papel das faculdades de medicina veterinária nesta matéria?

Enf. Marília Domingos: Considero extremamente importante. É durante a formação de um médico ou enfermeiro veterinário que se poderia começar a prevenir o Burnout, de forma ativa. Dar a conhecer aos estudantes o que é o Burnout, o que é a Compassion Fatigue, quais as suas causas e quais os seus sintomas. Dar-lhes ferramentas para que consigam, mais tarde, reconhecer os primeiros sinais de alerta, em si mesmos ou até em colegas de trabalho. Incutir, desde cedo, uma cultura de self-care pró-ativa nestes profissionais poderia contribuir, de forma considerável, para a diminuição do número de casos de Burnout.

Dr. Sérgio Lobato: Sim, desde que elas mudem seus valores pois eles replicam conceitos errados, são representantes de uma Medicina Veterinária do passado, formam profissionais que não estão preparados para os tempos modernos.

MIAU Magazine – Para além de se consciencializar os profissionais da medicina veterinária para este tema, não seria importante consciencializar os organismos que tutelam a classe e o setor, bem como as pessoas responsáveis pelos animais de companhia e a sociedade em geral? Considera que o projeto de comunicação ‘Mente Sã, Vet São’ poderia ser igualmente um veículo privilegiado para o efeito?

Enf. Marília Domingos Sim, a sociedade em geral não está ainda devidamente sensibilizada para esta questão. A Medicina Veterinária é uma profissão frequentemente desvalorizada pelos tutores dos animais que, inadvertidamente, poderão estar a contribuir para o stress dos profissionais. Existe muito trabalho a fazer nesse sentido, sendo que existe ainda algum desconhecimento do que é ser médico veterinário e do que é trabalhar como médico veterinário. O projeto “Mente Sã, Vet São” foi criado, em parceria com o Centro para o Conhecimento Animal, com o objetivo de trazer esta temática para cima da mesa, dando a conhecer, não só aos próprios profissionais da área, como também a todos os interessados, a realidade de muitos médicos e enfermeiros veterinários, em Portugal e no mundo.

MIAU Magazine – Quais os números da realidade brasileira a respeito deste problema?

Dr. Sérgio Lobato Estima-se que 1 em cada 4 Médicos Veterinários possa sofrer de sintomas de burnout no Brasil. O tema ainda gera muita controvérsia pois não existe uma pesquisa feita somente com os profissionais médicos veterinários, e sim com profissionais de saúde como um todo. Mas nos últimos 3 anos tem-se falado muito sobre o tema e eu mesmo, por trabalhar diretamente com os profissionais, acabo por perceber os sinais muito facilmente e converso de forma franca e principalmente, com muito tato, pois muitos profissionais negam suas fraquezas e debilidades emocionais, criando um personagem que em breve não se sustentará pois o preço da cobrança é alto.

MIAU Magazine – Quantos médicos veterinários existem no Brasil?

Dr. Sérgio Lobato: Estimam-se hoje, devidamente registrados em torno de 150.000.

MIAU Magazine – De acordo com a sua experiência e com as iniciativas que tem desenvolvido por uma mudança desta realidade no setor, sente que ainda há um longo caminho a percorrer ou já começam a registar-se melhorias?

Dr. Sérgio Lobato: Ainda há muito preconceito, organizamos eventos e palestras, e aos poucos a classe começa a comparecer, mas ainda de forma incipiente, e nas faculdades temos temas sendo discutidos em função de alguns casos de suicídio entre estudantes de veterinária. Ainda existem pessoas que não acreditam no burn out, mas também é fato mencionar que o burn out é apenas a ponta do iceberg.. existem muito mais fatores que devem ser analisados como postura profissional, desvalorização dos médicos veterinários,   questões éticas pessoais e o modo como a pessoa encara a própria vida

MIAU Magazine – De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), em 2017, o setor Pet brasileiro confirmou-se como o terceiro maior mercado do mundo em faturação, atrás somente dos Estados Unidos e Reino Unido. Este assunto foi tema na edição 4 da MIAU Magazine, no âmbito de uma entrevista a Gerson Alves – Presidente da Direção do Clube Brasileiro do Gato. Considerando esta realidade, não acha que esta circunstância poderá contribuir para a melhoria do setor veterinário?

– Dr. Sérgio Lobato: Quando percebemos que, de todo esse valor, apenas 7 a 9% são gastos com serviços médicos veterinários, percebemos que há muito trabalho a ser feito, como mudar o foco de Medicina Veterinária meramente Curativa para Medicina Veterinária Preventiva, o que mudaria aos poucos a perceção de valor da sociedade perante nossos serviços. Não há educação do consumidor de produtos e serviços veterinários, o que torna esse dado apenas belo para a venda de produtos, mas no segmento de serviços temos muito a reconstruir como postura, estratégias e ética profissional, e, somente assim, e com tempo, teremos uma participação maior na fatia desse bolo. Os clientes pagam 150,00 num serviço de banho e tosquia mas acham caro pagar 100,00 numa consulta veterinária…mas de quem é a culpa? Nossa! Devemos mudar nossa imagem, modificando nossas ações de trabalho! Nossa postura, nossas instalações devem ser mais profissionais e nosso ato médico veterinário mais respeitado. Somente assim celebraremos esses valores recordes de faturação.

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