Neste dia Mundial da Poesia, conheça alguns dos melhores poemas aos Gatos

Dia 21 de março comemora-se o Dia Mundial da Poesia. Conheça alguns poemas dedicados aos gatos

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De António Gedeão a Vinicíos de Moraes, Passando por Fernando Pessoa, Rose Arouck, Artur da Távola, Charles Baudelaire, Bocage, T. S. Eliot ou pela maravilhosa “Ode ao Gato” de Pablo Neruda, muitos foram os poetas a encontrar inspiração nos Gatos para criar belos textos.

Neste dia 21 de março, em que se assinala o Dia Mundial da Poesia, vamos conhecer alguns dos poemas que homenageiam estes felinos e se tornaram famosos e imortais.

Poema do Gato, António Gedeão

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

O gato, Vinícius de Moraes

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga

O Gatinho Ficou Livre Afinal, Rose Arouck

Ele estava ali preso dentro da caixa da virtude.
Seu medo transbordava não deixando que ele mude,
ele nem podia quase se mexer.
Pobre gatinho! Como estava a sofrer.
Tentava rasgar as paredes da caixa,
que mais e mais seu pesadelo o encaixa,
livrar-se dos laços que o prendem, para dali correr,
mas, era muito pesada
para sua pata já tão machucada.
Ele quieto e triste ficava
miando um lamento de desconsolo,
pedindo socorro,
aranhando qualquer coração.
Sempre alerta ao menor sinal
o gatinho erguia as orelhas, como um canal,
para captar as falas que lhe chegavam.
Era manso mas estava feroz
e nada podia naquela hora calar a sua voz.
Cheguei como uma pluma ao vento
e pousei no seu lamento…
Com dificuldade retirei a tampa que o prendia;
ele sorrio com um miado sem tormento
e saiu pinotando de contentamento…
Vai gatinho! Vai vivenciar uma nova era!
Sua dona senhora lhe espera…
Ela está ápta a lhe oferecer nova quimera
e lhe dará para sempre esse sol de primavera.

Seus bichanos, Waldyr Argento Jr.

Entra e sai ano,
Soninha e seus bichanos,
gatinhos que ela adora.
não tem dia, nem hora.

Tem amor,
comidinha do dia,
Tem calor,
mão que acaricia.

Felizes são com certeza,
tratados por essa flor
da natureza.

Que com toda destreza,
dá-lhes todo amor,
empresta-lhes beleza.

Poema para gatos, Artur da Távola

Silêncio,
eis a tarefa
de todos os gatos.
Poucos sabem perscrutar
(talvez ninguém em plenitude)
o grau de solidão necessária
ao saber auto suficiente
para ser felino e doméstico
em sua tarefa de monge
guardião do inextricável
em quem o homem não percebe
a metafísica natural,
recolhimento
saber
sensualidade
e aceitação.

 

Gatos e Atos, Bartolomeu Correia de Melo

Para quem, nos felinos, aprecia,
a beleza, o carisma, o fino trato,
um simples gato pode ser poesia…
Chegando devagarinho,
gato leva o silêncio
ao canto do passarinho.
O amor indiscreto
dos gatos de rua
ofende a pureza da lua?
Na mesa posta,
o gato se lambe
porque se gosta.
Um pulo de gato,
gracioso e exato,
qual verso no ar…
Tapeando a rosa,
o gato antegoza
ciúmes do beija-flor…
O rabo do gato no muro
descreve uma interrogação
que insulta o cachorro no chão.
No rastro do rato,
o gato, sem bulha,
mergulha no mato.
Os olhos do gato preto,
repiscam no negrume,
namorando o vagalume.
Gato gaiato,
bola de pelo,
rola o novelo.
A gata dengosa no cio,
olhando o telhado vazio,
parece gemer sete vidas.
Resta vaga magia
quando o gato afia
as unhas no tapete.
A tarde se fica,
enquanto o gato
dorme na bica.
Na poça de rua,
um gato bebendo
o brilho da lua
Do gato, restou o ronronado;
mas do canário, coitado,
apenas as penas.
No contrazul da janela,
qual nuvem no contravento,
gato branco passa lento…
Um gato vadio
miando no frio:
assim me sinto.
Olhar de gato,
mesmo com sono,
ainda decifra o dono.
Na rua antiga, cena de aquarela,
em cores triviais de tarde morna;
a madorna dum gato na janela.
O olhar da gata persa
conta uma estória inversa
das mil e uma noites.
Um gato pardo de andar
esguio e desafio
no olhar de esfinge.
Por causa dum gato,
sem dono nem sono,
perdi meu sapato.

 

Os dois gatos, Bocage

Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).

De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando
Lhe diz: ”Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.”

”Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.”
”Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.”

”Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup’rior a mim?

Tu não mias?” – ”Mio.” – ”E sentes
Gosto em pilhar algum rato?”
”Sim.” – Eo comes?” – ”Oh! Se como!…”
”Logo não passa de um gato.

Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.”

Haicais, Carlos Seabra

GATO
sol na janela
dorme gato no sofá
cor de flanela

SUSTO
salta o gato
assalta o gatuno
susto na noite

LIXO
terreno baldio
lixo revirado
gato vadio

PULO
olhos de gato
luz dos faróis na noite
pulo no mato

 

O gato tranquilo, Cassiano Ricardo

Ei-lo, quieto, a cismar, como em grave sigilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos,
onça que não cresceu, hoje é um gato tranqüilo.
A sua vida é um “manso lago”, sem escolhos…

Não ama a lua, nem telhado a velho estilo.
De uma rica almofada entre os suaves refolhos,
prefere ronronar, em gracioso cochilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos.

Poderia ser mau, fosforescente espanto,
pequenino terror dos pássaros; no entanto,
se fez um professor de silêncio e virtude.

Gato que sonha assim, se algum dia o entenderdes,
vereis quanto é feliz uma alma que se ilude,
e olha a vida através a cor de uns olhos verdes.

A GATA, Clarisse de Oliveira

O gato é todo magnético.
A própria estrutura do gato é magnética.
A maciez de seus músculos, o distender de seu corpo,
Alongando-se dentro do próprio magnetismo,
O seu repousar sem tocar o lugar onde se distende
Com o peso sem volume material, todo ele sustentado
Num suspiro de sonho;
No entanto,
Esse volume de suavidade
Aterrorisa o misterio da suposta escuridão,
Que a ausencia de olhos
Confunde a Terra
Por não poder enxergar na sua dimensão .
E no passado que é eternamente futuro,
Os sacerdotes do Antigo Egito,
Traziam num andor de prata,
A imagem bela-terrífica
De Bastet
A deusa Gata
Felinidade, é uma palavra dos mistérios
Da criação
É a agressão-doce das garras que se distendem
E seguram
Deixando à imaginação mais um dos mistérios
De Deus
Que também distendendo seu corpo para onde
Não existe,
O retém em lugar nenhum;
Essa imagem incorporea com
Cheiro de gato
E o calor doce de sua pequena boca…

Deus, o Desconhecido
não se revelou de todo…

Sua Verdade
está nos Felinos
cujo olhar
Mistério Precioso
te aguarda
no Recinto Sagrado
da Noite

 

Teu nome é gato… Cida Souza

Tens na noite teu abrigo
No perigo, teu amigo
Liberdade é música que fica
onde passa fazendo graça.
De repente só vc sente
sons que pairam no ar…
e devagar …
seus olhos buscam o que eu
não posso ver… só crer…
Quando cansas da noite lá fora
voltas teus passos em meus abraços
Agora…
derrama teu carinho
e faz de minha cama teu ninho…
conforto, de fato
teu nome é gato.

O Gato, Charles Baudelaire

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias
De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés a cabeca, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena.

Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux;
Retiens les griffes de ta patte,
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux,
Mêlés de métal et d’agate.

Lorsque mes doigts caressent à loisir
Ta tête et ton dos élastique,
Et que ma main s’enivre du plaisir
De palper ton corps électrique,

Je vois ma femme en esprit. Son regard,
Comme le tien, aimable bête,
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,

Et des pieds jusques à la tête,
Un air subtil, un dangereux parfum,
Nagent autour de ton corps brun.

Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu’en son appartement,
Un beau chat, fort, doux et charmant.
Quand il miaule on l’entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret;
Mais que sa voix s’apaise ou gronde,
Elle est toujours riche et profonde.
C’est là son charme et son secret.

Cette voix, qui perle et qui filtre,
Dans mon fonds le plus ténébreux,
Me remplit comme un vers nombreux
Et me réjouis comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux
Et contient toutes les extases;
Pour dire les plus longues phrases,
Elle n’a pas besoin de mots;

Non, il n’est pas d’archet qui morde
Sur mon coeur, parfait instrument,
Et fasse plus royalement
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux,
Chat séraphique, chat étrange,
En qui tout est, comme en un ange,
Aussi subtil qu’harmonieux!

– De sa fourrure blonde et brune
Sort un parfum si doux, qu’un soir
J’en fus embaumé, pour l’avoir
Caressée une fois, rien qu’une.

C’est l’esprit familier du lieu;
Il juge, il préside, il inspire
Toutes choses dans son empire;
Peut-être est-il fée est-il dieu?

Quand mes yeux, vers ce chat que j’aime
Tirés comme par un aimant,
Se retournent docilement
Et que je regarde en moi-même,

Je vois avec étonnement
Le feu de ses prunelles pâles,
Clairs fanaux, vivantes opales,
Qui me contemplent fixement.

 

OS TRÊS NOMES DO GATO, Lázaro Barreto
(Paráfrase de um poema de T. S. Eliot)

Dar nome aos gatos não é tarefa fácil nem fútil.
Muitas vezes quando digo que o gato deve ter
TRÊS NOMES DIFERENTES,
olham-me de novo, julgam-me biruta.
Mas assim é, por mais que estranhem e gozem.
Primeiro o nome corrente, de uso da família,
que pode ser Poetinha, Alípio ou Conceição.
Depois o escolhido de pessoas refinadas
(extravagantes ou mesmo sóbrias),
como Menelau, Polonaise ou Pixinguinha.
Por último o mais íntimo e solitário,
que ele mais necessita para manter o orgulho,
esticar os bigodes, enrodilhar-se na cadeira
ou pular o muro como num vôo retilíneo,
que pode ser Diadorim, Caracóia ou Ana Lívia Plurabelle,
nome
que nenhum outro gato ostenta.

Mas além desses e acima de tudo e de todos
Há um nome especial a preferir
– e esse ninguém nunca saberá.
É o nome que nenhuma pesquisa pode descobrir,
e que só o próprio gato sabe,
e que nunca dirá a ninguém.
Assim
Se você ver um gato em profunda meditação,
Os olhos abertos mas cegos, as unhas em inocente repouso,
a razão é sempre a mesma:
sua mente está ocupada na contemplação de seu profundo
e inescrutável e singular NOME.

Laio, o gato, Daniel Fiuza

Gato ligeiro, arisco e guerreiro,
O manda-chuva do pedaço,
Dono das gatas, lindo e trigueiro,
Como um rei, domina seu espaço.

Gato de briga apanha e não mia,
Não foge da luta, gato valente,
Dorme de dia, de noite folia,
Faz suas serenatas, gato atraente.

Vive nos telhados, ama nos muros,
Cantando as gatas, soltando miado,
Domina sozinho, se sente seguro,
Só volta pra casa, feliz e calado.

Defende seu território com unhas e dentes,
Quem o desafiar, vai conhecer o seu poder,
Gato Bravo, indócil, não aceita concorrentes,
Os que tentaram, se lamentaram pra valer.

Em casa não gosta de ser incomodado,
Quando está dormindo ninguém bole,
Foge, Não aceita carinho exagerado,
No colo da sua dona dorme, ele escolhe.

Gato esperto caça quando quer variar,
Abatendo uma presa fica contente,
Antes de comer, orgulhoso vem mostrar,
Demonstrando assim, como é independente.

Gato inteligente e belo, felino majestoso,
Somos seus criados, ele é quem determina,
Gato sensual, paixão das gatas, gato gostoso,
Sete vidas usa, com as gatas em cada esquina

O gato, Donizete Galvão

O gato é secreto.
Tece com calma o mistério do mundo.

O gato é elétrico.
Pura energia a percorrer a espinha.

O gato é orgulho.
Sem humildade, jamais se entrega.

O gato é desejo.
Atração pela lua e telhados.

O gato é sagrado.
Olho no olho que brilha.

Um susto.
Parece que vemos Deus.

O vôo da gata, Edson D’Almeida

(para nossa amada gatinha Keka que voou para o céu dos gatos)

Quando decidi partir,
já não havia mais razão alguma para ficar.
Já fazíamos mal um ao outro,
faltava o calor que nos unia.

Ah! Lembra-se de quantas doces armadilhas
fui capaz de criar?
Quantos momentos de ternura conseguimos tecer?
Quantos momentos ridículos, gargalhadas tolas?
Eu jamais vou esquecer.

Você foi o “dono” da minha vida!
E não importa o quanto durou,
valeu cada segundo, cada imagem
que levo na lembrança.

Lembra da primeira vez
que andei de bicicleta?
Pensei que sem ajuda seria capaz…
E das mensagens surpresa, das provocações charmosas?

Lembra das manhãs e dos vôos matinais?
Jogava-me em seus braços ou me prendia em sus pernas.
Minha alma vai carregar você aonde quer que eu vá.
Às vezes existem coisas que vão além da nossa vontade,
da nossa esperança, das nossas manhãs.

Você não deve se culpar.
Nós temos que assumir tantas funções, tantos papéis,
que acabamos perdendo os nossos motivos
para ficarmos tão juntos.

Levo comigo poucas coisas,
na certa você não dará falta por elas:
sua calça preta de veludo cotelê
quando nós dois calados assistíamos TV
e você era o meu travesseiro e me fazia dormir.

Aquela camisa que você me deu
e dizia sempre que nela residia a lembrança
de como é forte o poder de uma mulher.
Levo também sua camiseta regata,
sem dúvida não poderia deixar de levá-la
pois guarda o seu cheiro e a sua presença.

Você conheceu outros caminhos, novas paixões
e é preciso abrir a porta e partir, pois só assim
seu coração aprenderá novas canções,
e o meu, novamente vai repetir o vôo da gata.

 

Dar nome aos gatos, T. S. Eliot

O nome dos gatos é um assunto matreiro.
E não passatempo para entreter parentes:
Podem me achar doido igual a um chapeleiro.
Mas um Gato tem TRÊS NOMES DIFERENTES.
O primeiro é o nome que a família mais usa.
Como Pedro, Augusto, Estêvão, Oliveiros.
Como Vítor, Jorge, ou Jonas ou Fiúza…
Mas nomes nomes que são no entanto corriqueiros.
Outros há pomposos, que parecem mais chiques
Sejam para as damas ou para os cavalheiros:
Como Electra, Egeu, Inês, Afonso Henriques…
Mas nomes que são no fundo corriqueiros.
Ora afirmo: um gato apenas se completa
Com um nome que seja peculiar e distinto;
Como iria então manter a cauda ereta,
Erguer os bigodes e acalentar o instinto?
Dos nomes da espécie, a lista é pequenina:
Como Munkustrap, Quaxó, Coricopato,
E Ágata talvez, talvez Bombalurina…
Nome que se aplica apenas a um só gato.
Mas acima e além, um nome se exorciza,
Esse que jamais nos viria à cabeça,
Procurando em vão pela humana pesquisa…
Só O GATO SABE, mas a ninguém confessa.
Se vires um gato em profundo mutismo,
Saibas a razão que o tempo lhe consome:
Sua mente paira a divagar no abismo
E ele pensa, e pensa, e pena no seu nome:
No inefável afável
Inefanifável
Fundo e inescrutável sentido de seu Nome.

 

Fernando Pessoa, Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

 

Lições de um gato siamês, Ferreira Gullar

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

O ronron do gatinho, Ferreira Gullar

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.

Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença – é carinho.

O gato, Flávio Rubens

O Gato, em si, o gato é
no espaço em que se vê
o gato que habita o gato
emoldurado pelos olhos
que decifram a forma gato
no gato objeto do poema;
o gato humano no beiral
da cama onde o gato é.

Ser gato é forma definida
ao gato, então perplexo, que, reflexos
de outros gatos, demonstra gatos
ao entendimento curioso
do gato ser.

Somos gatos ao gato é
assim como o gato não sabe
que é gato e por não ser gato
ao espaço dos meus olhos
que os vê no gato do poema
é concepção de forma
sem estrutura humana
ao beiral da cama
onde o gato é.

Dois gatos, Helil Lourenço

O gato que vira lixo
E o gato na almofada
São gatos os dois
Nunca
Um é gato na almofada
O outro é gato depois

Um é gato de dia
Nos pelos e nas preguiças
O outro vira lixo
Nas unhas e nas malícias

Um é gato de noite
E briga contra um Deus pardo
O outro na almofada
Ludibriando um Deus dono

 

O gato e o pássaro, Jacques Prévert

Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro pára de cantar
O gato pára de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Maravilhosos funerais
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Que você teria sofrido menos

Sentiria apenas tristeza e saudades

Não se deve deixar as coisas pela metade.

 

Gato, Izacyl Guimarães Ferreira

Dois sentidos o protegem:
seus ouvidos de radar,
seus olhos de escuridão.
O mundo é uma passarela
e uma guerra provocada.
Incapaz de cativeiro,
a elegância natural
repele doma e domínio.
Preceitos: a liberdade
e um amor insubornável.
Com sete vidas o gato
confirma a ressurreição.
Cada vez que morre,o gato
vira tigre, mais selvagem.

O GATO DE CHAGALL, J. T. Parreira

Eu solto os meus olhos
com o gato do primeiro andar
nele

elevo-me do chão
no voo
de um pássaro

pulo
três quatro lanços
de ar

com o gato solto
nos meus olhos.

 

O gato e o verso, Luiza Aparecida Mendo

Eu escrevo
ele descreve
piruetas,
carvão e neve
E quando encontro a rima
Lá vem o danado
em cima do meu teclado
Insistiu tanto o bichano
que conseguiu o que queria:
ser minha própria poesia!

 

Os Gatos, Marinez Stringheta

O gato preto
Peludo chegou
Os pêlos limpou.
Miou e sondou:
— Onde está a gata?!
(ronronando no sofá).

Vou me enfeitar para ela.
Olhou-se no espelho:
— Que “gato”!!
Aproximou-se:
— Miaaauuu!!! Miaaauuu!!!

A gata gostou.
O gato preto… A gata branca…
Rolaram… Namoraram…
E… se cansaram.
Saíram na madrugada
À procura de comida
E… amigos!!!

Gata Preta, Nair Lúcia de Britto

A minha gata é toda preta…
Por isso lhe dei o nome de Preta
De dia, ela me faz companhia
De noite, ela vai passear!

Por onde ela foi, vai ou ia…
Só a Lua sabe informar
Pela manhã bem cedinho
Me dá bom-dia, fazendo carinho

Rom… rom… rom… quer dizer
Um beijinho! “Quero afago!”
— Como a comidinha…
E, depois, eu apago!

No escuro eu não a vejo
As cores se confundem na escuridão
Preto sobre o preto… Então,
Sinto um aperto no coração!

Procuro, que procuro
Nos cantos mais escuros…
De um lado pro outro, eu vou
Será que a Preta me abandonou?

Então como dois faróis acesos
Seus olhos se iluminam na escuridão
Verdes, redondos… dentro do preto
Para a alegria do meu coração!

PULOS DE GATO, Rosangela Aliberti

Uma gata fugindo de um pastor alemão
Um gato tomando injeção da veterinária
Uma gata no balaio entre cães & gatos
Um gato fazendo de outro gato e sapato
Uma gata presa numa caixa-gaiola irá viajar de avião
Um gato com medo da escuridão no porão
Uma gata descobrindo que levou gato por lebre
Um gato descendo a ladeira de paralelepípedos
Uma gata em cima dos escombros do muro de Berlim
Um gato caçando pardaizinhos
Uma gata dando a luz a última ninhada
Um gato ao lado da linha de um trem na estrada
Uma gata atravessando o asfalto na cidade
Um gato caminhando por um terreno baldio
Uma gata saindo de um saco de papelão
Um gato escondido atrás da cortina com o rabo de fora
Uma gata se coçando sozinha
Um gato miando feito tonto de madrugada
Uma gata se equilibrando após a caída da calha
Um gato fazendo pirraça para a dona
Uma gata admirando os peixes no rio
Um gato enfeitando cartões postais
Uma gata arrepiando os pêlos
Um gato na ilustração do livro ´Para los amantes de los gatos´
Uma gata comendo um rato de OlhOs bem vivos
Um gato correndo dos pingos da chuva
Uma gata pisando em ovos num telhado de vidro
Um gato ´desamarrando´ o gato
Uma gata arranhando o braço de um sofá
Um gato perseguindo um galhinho de mato
Uma gata cheirando flores no jardim
Um gato passeando por cima de um piano
Uma gata dando banhos de língua em si mesma
Um gato se esfregando sobre a erva-dos-gatos
Uma gata pregada no calendário do novo ano
Um gato ouriçando os pêlos
Uma gata procurando uma bola atrás do sofá
Um gato brincando com o fio rosa do novelo-de-lã
Uma gata desviando das taças de cristais no bar
Um gato afiando as unhas em uma árvore
Uma gata subindo em um cajueiro
Um gato caindo com as quatro patas no chão
Uma gata levando um camundongo ou outro até o forro do sótão
“A un gato”, Jorge Luis Borges, em uma de suas poesias
Uma gata sendo acariciada pelas mãos de uma criança
Um gato namorando com uma gatinha
Uma gata comeu sua língua?
Um gato lambendo os bigodes
Uma gata papando sardinhas
Uma gato tomando leite em um pires
Uma gata ronronando no colo da vizinha
Um gato no documentário noturno na TV
Uma gata com olhos brilhantes observando VOCÊ

Desabafo de um gato, Silvia Schmidt

Gente complicada é um saco de gatos!
Mas o maior saco é ser gato!
Principalmente sem raça.
Dizem que gato dá azar,
mas o grande azar é ser gato!
De dia a “gente” se esconde
da paulada, da pedrada, do atropelamento,
do “pega pra capá”,
do balde d’água, da vassoura
e até de um outro gato
que corre pro nosso lado
fugindo das mesmas coisas!
À noite , como diz o provérbio,
“Todos os gatos são pardos”.
Então, a “gente” se arrisca
e põe a cara pra fora:
às vezes viramos presunto
quando não viramos churrasco!

De fato nós temos um jeito
até muito humano de ser.
E que culpa temos disso?
Malícia, desconfiança,
muita personalidade,
atração pelo conforto,
preguiça, instabilidade de humor,
muito afeto reprimido pelo medo
e muita vontade de sermos amados.

Se eu fosse gente,
eu adotaria um gato.
E como gato,
eu adoraria “adotar” alguém!

Mas, infelizmente,
muitos pensam
que gato é um saco.

MAS SACO MESMO É SER GATO !!

Ode ao gato, Pablo Neruda

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogara as moedas da noite

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na imterpérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundissimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insignia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
díscipulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extrávios,
o pôr e o mesnos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.

 

 

 

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