Cuidados de saúde em cada etapa da vida do gato

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Detetive: substantivo masculino; pessoa que partilha a vida com gatos e cuja função é investigar, obter informações e provas difíceis de encontrar!

(artigo publicado na edição 8 – Março/Abril – da Miau Magazine)

Chegou finalmente o mês de Março e com ele regressamos ao Maravilhoso Mundo Felino! Já tinham saudades? Nós sim! Para iniciar o mês da melhor maneira vamos falar sobre os cuidados de saúde necessários em cada etapa da vida do gato: júnior, adulto e sénior. Preparados?

Talvez alguns de vocês que têm acompanhado os meus artigos aqui na Miau Magazine já se questionaram o porquê de eu ser “uma Médica Veterinária que se dedica exclusivamente desde sempre à Medicina Felina”. Verdade? A razão é apenas uma: o gato não é um cão pequeno! Qualquer um que esteja familiarizado com o comportamento do gato sabe que isso é verdade e, além disso, o mesmo se passa quando nos referimos à sua saúde.

Os gatos têm uma fisiologia única, necessidades particulares e doenças distintas às dos cães. Vou dar-vos um pequeno exemplo: já se aperceberam que o gato, ao contrário do cão, além de predador também é uma presa? Sim, é verdade! Em modo selvagem o gato é caçado e esta condição natural faz com que o seu gato não demonstre sinais de vulnerabilidade, que consiga camuflar os sinais de doença… e, infelizmente na maioria das vezes, quando demonstra sinais clínicos mais evidentes pode ser tarde demais. Os gatos não tornam as coisas fáceis (mas não é isso que nos fascina?!) e por isso precisam de tutores detetives, cuja função é investigar, obter informações e provas difíceis de encontrar (além da função de “abre latas”, claro!)!

Detetive: como posso ser um?

Já deu o primeiro passo para se tornar num tutor detetive, parabéns! Neste momento está a aprender mais sobre o Maravilhoso Mundo Felino. Na minha opinião, esse é o passo mais importante “Querer saber mais!”. Quanto mais souber sobre o seu gato, melhor vai cuidá-lo. O segundo passo é, sem dúvida, apostar na Medicina Preventiva. Dar uma alimentação adequada, ter uma boa saúde oral, estimular diariamente o comportamento predatório, manter um peso saudável, ter um protocolo vacinal e de desparasitação adequado é a base de toda a Medicina Felina. Arrisco mesmo a dizer que só quando se aperceber da importância de levar o seu gato anualmente à consulta de rotina (mesmo que aparentemente esteja tudo bem) é que realmente aprendeu que o gato é um verdadeiro mestre do disfarce.

Medicina Preventiva: essencial em qualquer etapa de vida do gato

Gato Júnior

É a fase da vida do gato que decorre desde o nascimento até cerca dos dois anos de idade. Todos os gatinhos recém-nascidos devem ser consultados de modo a verificar se há problemas de saúde congénitos (de nascença), como por exemplo fenda palatina ou hérnia umbilical. A desparasitação também é de extrema importância nesta fase. Sabia que em alguns casos a desparasitação poderá estar aconselhada logo a partir dos 15 dias de idade?

Nesta etapa é crucial discutir a escolha de estilo de vida do gato (acesso ao exterior ou exclusivamente indoor; gato reprodutor; gato único ou casa com vários gatos; etc), a dieta mais adequada e (importante não esquecer!) abordar questões comportamentais. No caso particular dos gatos o período de sociabilização é muito curto: das 2 às 8 semanas de idade! É importante que o gatinho tenha contacto com pessoas (inclusive bebés e crianças), que seja exposto aos barulhos comuns do dia-a-dia, que contacte com cães se for conviver com esta espécie e que os tutores saibam como devem brincar e interagir com o novo companheiro. Só assim é que o gato vai estar preparado para lidar da melhor maneira com os futuros desafios, sem medo nem stress desnecessários que podem comprometer o seu bem-estar.

O protocolo vacinal também é definido e iniciado nesta fase, sendo de extrema importância numa altura em que o sistema imunitário é imaturo e débil. Lembre-se que todos os gatos devem ser vacinados, mesmo os que estão sempre em casa. O tipo de vacinas e a frequência de administração vai ser definida pelo médico veterinário, tendo em conta o estilo de vida e o risco de contágio do seu gato.

O despiste de algumas doenças infeciosas, nomeadamente, o vírus da imunodeficiência felina (sida dos gatos) e o vírus da leucemia felina, também é realizado nesta etapa da vida do gato. Lembre-se que nunca deve introduzir outro gato em sua casa sem realizar primeiro este teste nem permitir que o seu gato contacte com outro gato com um historial sanitário desconhecido.

A esterilização deverá ser feita a partir dos 4 meses de idade, idealmente antes do primeiro cio no caso das gatas. Não é aconselhado o uso de pílulas ou de outro método hormonal como meio de controlo reprodutivo, devido à elevada prevalência de tumores mamários e de infeções uterinas.

Gato Adulto

Esta fase da vida do gato decorre desde os 3 aos 11 anos de idade. Até aos 6 anos de idade os problemas de saúde mais comuns são a obesidade, a cistite, as doenças intestinais, os problemas comportamentais e as doenças orais.

Estima-se que cerca de 85% dos gatos com mais de 3 anos de idade têm algum tipo de doença oral como a placa bacteriana, o tártaro, a gengivite e as lesões de reabsorção dentária. É importante instituir um protocolo de prevenção de saúde oral desde a primeira consulta (sim, desde que ensinados os gatos aceitam a lavagem de dentes!) e fazer um check-up dentário em todas as consultas de rotina anuais. A prevalência destas doenças nos gatos é de tal ordem que é essencial ter equipamento específico que permita a realização de radiografias intra-orais em Medicina Felina.

Quer uma dica Alma Felina? Peça ao Médico Veterinário uma cópia do registo da avaliação dentária do seu gato (odontograma) da consulta anual. Assim vai conseguir acompanhar a saúde oral do seu gato ao longo dos anos e facilmente identificar alterações (ex. fraturas dentárias, ausência de dentes, etc).

A partir dos 6 anos de idade os gatos adultos enfrentam um maior risco de desenvolver diabetes, doença renal, hipertiroidismo e cancro. Como já referido anteriormente, os gatos são mestres do disfarce, não manifestando na maioria das vezes sinais de doença. De um modo geral, a partir dos 6 anos de idade todos os gatos devem realizar uma consulta anual de rotina que inclua, além de um exame clínico minucioso, a realização de análises de sangue, uma análise de urina e uma medição da pressão arterial, mesmo que aparentemente esteja tudo normal. Nesta altura (como excelente tutor detetive que sei que se está a tornar!) deve certamente estar a questionar-se por quais “pistas” deverá estar atento, correto? Aqui estão elas: pelo baço, com nós ou “caspa”; vómitos, mesmo sejam de bolas de pelo; diminuição ou aumento de apetite; perda de peso; aumento de ingestão de água; maior produção de urina; passar mais horas a dormir; vocalização noturna excessiva; etc. Dê importância a qualquer alteração de rotina do seu gato e, caso tenha dúvida se determinada alteração pode ou não ser devida à idade, entre em contacto com o Médico Veterinário. Afirmações como “dorme mais porque está mais velhote” ou “os vómitos do meu gato são normais porque são bolas de pelo” são infelizmente muito comuns e, na maioria dos casos, são sinais clínicos de que algo não está bem.

Gato Sénior

A etapa de sénior de um gato começa a partir dos 11 anos de idade, o equivalente a 60 anos de idade em humanos. Nesta fase da vida os gatos podem ter várias doenças ao mesmo tempo, tal como nós. No entanto, a maioria das doenças são tratáveis ou controláveis se detetadas precocemente. Lembre-se sempre que “velhice” não é doença! Um gato idoso continua a brincar e não perde massa muscular apenas por ser mais velho. A insuficiência renal, o hipertiroidismo, a hipertensão arterial, o cancro, a desidratação, a prisão de ventre, a osteoartrite e a disfunção cognitiva (equivalente à demência senil humana) são as doenças mais prevalentes nesta fase. Dê importância ao pelo baço e com nós, ao crescimento excessivo ou engrossamento das unhas, à relutância em subir ou descer obstáculos, à perda de massa muscular, às mudanças de comportamento, aos vómitos, etc.

Todos os gatos séniores devem realizar uma consulta anual de rotina que inclua, além de um exame clínico minucioso, a realização de análises de sangue, uma análise de urina, avaliação da função da tiróide, uma medição da pressão arterial, uma avaliação cardíaca e uma avaliação ortopédica, mesmo que aparentemente esteja tudo normal. A frequência das consultas poderá ser maior do que uma vez ao ano, dependendo da existência ou não de patologias ou de fatores predisponentes. O importante é ter em consideração que 1 ano nesta fase da vida do gato equivale a cerca de 4 anos na escala humana e que em determinadas situações pode ser necessário um controlo mais apertado.

No próximo número da Miau Magazine voltaremos ao Maravilhoso Mundo Felino para falar das idas ao veterinário (e das viagens de carro dentro da transportadora, claro!) e sobre o que são Hospitais Cat Friendly. Ficaram curiosos? Esperamos que sim. Até breve!

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