Os gatos “Garfield” não são nem mais saudáveis nem mais felizes – muito pelo contrário!

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Artigo elaborado por Joana Pereira, Médica Veterinária-Departamento de Comunicação Científica da Royal Canin Ibéria.

Tem um gato “Garfield” em casa? Acha que pelo fato de ser mais gordinho é mais saudável, bem nutrido e fofinho? Pois tal não podia estar mais longe da verdade: anos de observação clínica destes animais revelam que eles têm muito mais propensão a problemas de saúde, além de viverem menos anos. Gordura não é formosura e pode estar a colocar a vida do seu animal em perigo.

O excesso de peso em felinos está a tornar-se cada vez mais comum. Há cerca de uma década estimava-se que afetasse 1 em cada 3 animais, hoje em dia estima-se que 1 em cada 2 animais sofra deste problema, sendo que os números a nível Ibérico apontam que 40 a 50% dos gatos têm  excesso de peso ou são obesos. E esta não é uma questão meramente estética – a obesidade é uma doença crónica, com efeitos verdadeiramente nocivos para a saúde dos animais.

Sabe-se que, além de afetar severamente a sua qualidade de vida, com o aparecimento precoce de doenças graves e que muitas vezes se fazem acompanhar de dor e desconforto, a obesidade leva também a uma redução expressiva da longevidade. Num estudo recentemente publicado(1), em que se avaliou retrospetivamente a situação clínica de mais de 50 000 cães, identificou-se um padrão de redução de até 2,5 anos na longevidade dos animais com excesso de peso e acredita-se que o mesmo se poderá passar com os pacientes felinos. E, no entanto, a maioria dos tutores não tem consciência da gravidade deste assunto e muitos tomam mesmo como normal e inevitável o facto do seu gato de interior, castrado e sedentário, estar “cada vez maior e mais gordinho”.

Sempre que o equilíbrio entre a ingestão de calorias e o seu gasto pende para uma ingestão excessiva relativamente ao nível de atividade ou estado metabólico, o animal ganha peso. É o caso, por exemplo, dos animais esterilizados, que veem as suas necessidades metabólicas reduzidas após a cirurgia (por questões hormonais), ao mesmo tempo que o seu apetite aumenta bastante, tal como os períodos de descanso e inatividade. Entre os grupos de risco estão também aqueles que vivem com vários gatos em casa (e onde é, portanto, bastante mais complicado controlar o que cada um come), que têm um estilo de vida sedentário e exclusivamente de interior, ou que tomam certo tipo de medicação.

Mas o principal problema hoje em dia passa por um descontrolo das quantidades de alimento dadas ao animal: o manter a taça sempre cheia, o “dar a olho”, o dar alimento sempre que o gato mia. Nem sempre que miam é para pedir comida, muitas vezes miam para pedir atenção, festinhas ou brincadeira. E o fato de se dar comida como demonstração de afeto, como forma de reforçar a ligação afetiva ao animal (até porque sabemos que muitas vezes este é o momento de maior interação com os tutores), leva a frequentes situações de sobrealimentação e a um reforço positivo desse comportamento. Também o facto de se fornecer um alimento excessivamente calórico para as necessidades do animal, ou que não lhe consiga induzir a desejável sensação de saciedade (com os consequentes miados desesperados de pedido de alimento), resultam num aumento relativamente rápido do volume e peso do felino da casa.

Quanto às consequências práticas: um gato com excesso de peso dorme mais, brinca e mexe-se menos, furta-se a saltar para sítios mais altos (o que lhe limita o tal comportamento tão tipicamente felino de controlar tudo das “alturas”), pode ressonar, cansa-se mais facilmente. Um gato com excesso de peso tem também um risco 4 vezes superior de vir a desenvolver Diabetes mellitus (o que implica, tal como nas pessoas, injeções de insulina e controlos frequentes da glicémia no sangue), um aparecimento muito mais precoce de problemas osteoarticulares, aumento de até 7 vezes no risco de cálculos e problemas urinários, problemas dermatológicos, cardiorrespiratórios ou até imunitários, para citar apenas alguns.

Felizmente, os animais que perdem peso ao abrigo de um plano devidamente formulado e acompanhado por uma equipa veterinária, têm um ganho excecional na qualidade de vida e vivacidade.

O Programa de Perda e Controlo de Peso implementado pela Royal Canin em quase 500 clínicas em toda a península Ibérica desde o ano passado, tem tido resultados fantásticos. Conta já com relatos de inúmeros casos de sucesso, animais mais felizes e saudáveis e tutores muito satisfeitos com as mudanças verificadas nos seus gatos e cães. Tudo começa por uma consciencialização dos tutores e público em geral para o problema. A partir daí, é necessário marcar uma consulta para avaliação clínica do animal, determinação do seu Índice de Condição Corporal e peso ideal e delineamento de uma esquema alimentar e de exercício feito à medida de cada paciente. A dieta mais eficaz será a que promova uma perda de peso progressiva e segura  – nos gatos, por exemplo, uma perda de peso demasiado rápida pode trazer problemas hepáticos bastante graves – e a perda de tecido adiposo, mas manutenção da massa muscular (a “massa magra”).

A dieta terá de ser necessariamente palatável para que haja ingestão voluntária, mas terá também de induzir a sensação de saciedade necessária para que o animal não sinta fome e não solicite alimento de forma desmedida – o que pode levar os tutores a dar alimento em excesso ou extras, corrompendo todo o esquema e pondo em risco a eficácia do programa. Ao serem também alimentos nutricionalmente equilibrados de um ponto de vista global, não se corre o risco de se provocar outras carências nutricionais (que poderiam levar à má qualidade do pelo ou das fezes, por exemplo). E claro, é desejável que o peso se mantenha estável após perda, pelo que o recomendável hoje em dia, tendo em conta o caráter crónico desta doença (como reconhecido pela WSAVA(*)), é manter a mesma dieta utilizada no programa de perda de peso, mas numa dose maior, de manutenção. Os animais perdem peso e ganham anos e qualidade de vida.

Mas como em tudo, é sempre preferível evitar em vez de tratar. Por isso, atualmente já contamos com alimentos específicos para animais esterilizados (que limitam a sua tendência natural para o ganho de peso e os deixam mais saciados), bem como com comedouros interativos e um sem número de brinquedos que estimulam o aumento da atividade física dos gatos mais pachorrentos e dorminhocos. Não tome como normal o facto de o seu gato dormir mais e já não querer brincar – aconselhe-se junto do médico veterinário quanto ao melhor plano de ação para o caso do seu animal de estimação em particular.

* WSAVA: World Small Animal Veterinary Association.

 

Referência bibliográfica:

  1. Salt C. et Association between life span and body condition in neutered client-owned dogs. J Vet Intern Med. 2019;33:89–99.

 

Artigo elaborado por Joana Pereira, Médica Veterinária-Departamento de Comunicação Científica da Royal Canin Ibéria –  para a edição 8 da MIAU Magazine.

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