FIV e FeLV: Afinal o que significa?

Maria João Dinis da Fonseca – Grupo Hospital do Gato

O acrónimo FelV vem do inglês Feline Leukaemia Virus que em português significa Virus da Leucemia Felina. O acrónimo FIV significa em inglês Feline Immunodeficiency Virus que em português significa Vírus da Imunodeficiência Felina por vezes conhecida como SIDA Felina.

Embora em termos de sintomatologia as doenças possam, por vezes, ser semelhantes, os vírus envolvidos são muito diferentes. E é também muito diferente a evolução destas duas doenças. A confusão surge porque ambas devem ser rastreadas em gatinhos. Na maioria das vezes o despiste é feito em simultâneo e “na hora” com um teste rápido. O tutor acaba por poder ficar confuso quer acerca quer do diagnostico quer do prognostico, destas duas doenças.

Nem o FeLV nem o FIV são contagiosos para o Homem ou para qualquer outro animal. No entanto por se tratarem de animais que estão imunodeprimidos e, portanto, suscetíveis a serem infetados por outros agentes o seu contacto com pessoas imunodeprimidas requer medidas de cuidados adicionais.

Não é tarefa fácil falar sobre FIV e FeLV, são desafios diários para os médicos veterinários. Espero que as próximas linhas ajudem a clarificar as dúvidas, pois dado que ambas as doenças continuam com prevalências altas em Portugal, é importante que as conheça e esteja alerta.

FeLV: Características, Diagnóstico, Tratamento e Prevenção

Características

O vírus é responsável por uma doença grave cujos sintomas são muito variáveis. Tipicamente a doença manifesta-se com febre, prostração e diminuição do apetite, sintomas comuns a todas as doenças infeciosas e por isso muito inespecíficos. As análises revelam com frequência anemia grave associada a imunossupressão. A depressão que o vírus causa no sistema imunitário é um dos principais efeitos da doença e é responsável por muitas outras doenças a que o gato fica sujeito. Cerca de 15% dos gatos infetados com vírus FeLV desenvolve “cancro”: linfoma ou leucemia entre outros tumores.

Os gatos contraem a doença por contacto direto com outros gatos, através da ingestão do vírus presente em fluidos como seja saliva, fezes, urina e leite. O contacto social (partilha de comedouros, caixas de areia e troca de saliva quando se lavam) é a via principal de contágio. O contágio entre gatos que não coabitam é muito improvável pois a resistência do vírus no meio ambiente é baixa. Existe transmissão de mãe para filhos, embora o mais frequente seja que os gatinhos filhos de mães positivas morram durante a gravidez ou no período pós-natal. Embora possa afetar gatos de todas as idades os gatos até aos 6 anos são muito mais sensíveis à infeção

Diagnóstico

Existem vários testes rápidos, que são realizados “na hora”, com muito boa sensibilidade e especificidade, embora como qualquer analise possam ter resultados falsos negativos e falsos positivos. Quando necessário, em casos pontuais, é necessário a realização de outras técnicas de análise em laboratório. A particularidade desta doença é o fato dos resultados não terem uma interpretação linear.

Antes de um introduzir um gato com outros é essencial testar face a FIV e FeLV e realizar um período de quarentena.

Um gato que seja positivo para Felv não significa que esteja doente, pois pode ser um caso do que se chama uma forma transitória de doença, e o teste tem de ser confirmado e/ou repetido passado 8 a 12 semanas. Por outro lado, o fato do teste ser negativo não significa que o gato não esteja infetado, pois pode ter contraído o vírus, mas este ainda não ser detetável no sangue. Para complicar mais a interpretação dos testes há ainda o que se chama infeções latentes que são os casos em que o gato é portador do vírus, mas não apresenta sintomas. Os gatos com infeção latente a qualquer altura podem ficar doentes ou pelo contrário acabar por consegui eliminar o vírus.

Tratamento

Trata-se sempre de uma doença com um prognóstico grave. Nos estádios iniciais a utilização de antivíricos e estimulantes imunitários é de considerar. Recorrer a transfusões de sangue também é necessário com frequência. A alimentação adequada é muito importante para manter um estado nutricional equilibrado. Se o gato tem um regime de alimentação caseira pode continuar, mas deve evitar dar carne crua a gatos imunodeprimidos.

É essencial que o gato esteja protegido contra parasitas externos (pulgas e carraças) e internos (lombrigas e ténias). O gato deve de preferência ser mantido exclusivamente em casa (indoor). Ao manter o seu gato em casa não só o está a proteger a ele, como está a prevenir a transmissão da doença a outros gatos. Os gatos infetados com o vírus FeLV devem ser vacinados contra outras doenças, ainda que a vacina utilizada deve ser a adequada para gatos imunodeprimidos.

A esperança média de vida de um gato com a doença declarada é de cerca de 3 anos. Existe uma percentagem de gatos (entre 5 a 10%) que apresenta uma forma atípica de doença e que consegue manter a doença “controlada” por vários anos.

Prevenção

Felizmente existe vacina contra este vírus, e algumas com proteções muito próximo dos 100%. Embora não se trate de uma vacina que faça parte de todos os protocolos, é recomendada sempre que a história clínica do seu gato revele fatores de risco. A primo vacinação consiste na administração de duas doses, normalmente a partir das 9 semanas de idade e futuramente um reforço anual. O protocolo vacinal do seu gato só pode ser estabelecido por um médico veterinário que após análise da situação, escolhe o mais adequado para o caso do seu(s) gato(s).

A realização de um protocolo de testes adequado ao caso particular é crucial sempre que se introduz um novo gato.

Em conclusão, o vírus da leucemia felina é responsável por uma doença grave. As características particulares deste vírus tornam por vezes difícil definir o risco que um gato apresenta de ser transmissor. A prevenção vacinal é uma arma poderosa contra a doença e todos os gatos em risco devem ser vacinados.

 

FIV: Características, Diagnóstico, Tratamento e Prevenção

Características

Quando infetado com FIV, o gato apresenta sintomatologia e um padrão nas análises semelhante ao FelV. A imunossupressão que este vírus causa é o que mais caracteriza esta doença. É por isso muito frequente existirem infeções secundárias como seja por exemplo infeções por  Mycoplasma (Anemia infeciosa felina) e outras doenças infeciosas. Por a doença ser vulgarmente conhecida como SIDA felina e por em termos de características os vírus terem algumas semelhanças, surge com frequência a dúvida se é contagiosa para o Homem. Nem o FeLV nem o FIV são contagiosos para o Homem ou para qualquer outro animal. No entanto por se tratarem de animais que estão imunodeprimidos e, portanto, suscetíveis a serem infetados por outros agentes o seu contacto com pessoas imunodeprimidas requer medidas de cuidados adicionais.

A principal via de contágio entre gatos, é através de lutas, por isso machos que vivam na rua e que não estejam castrados são os mais afetados pela doença. Não existe transmissão de mãe para filhos durante a gravidez, no entanto o contacto próximo durante o nascimento e período pós-natal faz com que a transmissão seja provável.

Diagnóstico

O teste que referi para o FeLV que se realiza na hora, é vulgarmente realizado em simultâneo para FIV. Mas também aqui o diagnostico nem sempre é linear. O teste mais frequentemente usado é um teste que faz pesquisa de anticorpos, se o despiste é realizado antes dos seis meses um resultado positivo pode indicar apenas “passagem de anticorpos maternos”, ou seja das defesas da mãe, mas não significa que tenha ocorrido transmissão do vírus.

Durante os primeiros seis meses de vida os gatinhos podem ser positivos para o teste rápido de FIV, mas não significa que estejam infetados

Por outro lado, tal como no caso do FeLV um resultado negativo para ser definitivo deve ser realizado entre 8 a 12 semanas após o gato ter sido recolhido do ambiente de risco para um ambiente seguro.

Tratamento

O prognóstico de um gato com infetado com FIV é de um modo geral melhor que o de um gato infetado com FeLV. Os cuidados e os tratamentos são muito semelhantes aos referidos para o FeLV. Um gato infetado com FIV que vive em casa com uma boa alimentação, protegido contra parasitas internos e externos, e que tenha as vacinas adequadas pode ter uma esperança de vida semelhante a um gato sem FIV.

Prevenção

Em Portugal não existe vacina contra FIV. Assim a principal ferramenta para prevenir a transmissão do vírus é evitar lutas entre gatos, pois é a principal forma de contágio. A esterilização de todos os gatos é sem dúvida, também por isso, uma forma indireta de prevenir a disseminação da doença.

Em conclusão o vírus da imunodeficiência felina pode ser responsável por uma doença grave, mas em muitos casos o gato fica portador assintomático do vírus podendo viver muitos anos sem qualquer sinal. Saber se o gato é ou não portador é muito importante para tomar medidas que evitem a transmissão a outros gatos e medidas que ajudem a manter um bom equilíbrio do sistema imunitário.

A reter

Medidas concertadas de prevenção destas doenças como sejam aliar as vacinas a um controlo populacional dos gatos errantes, com programas de esterilização e a uma mentalidade de adoções responsáveis e responsabilizantes diminuirão a incidência destas doenças num futuro próximo.

A proveniência do gato, a idade, a sensibilidade e especificidade dos testes usados e o contexto epidemiológico em que se encontra o gato são alguns dos fatores que devemos ter em conta quando interpretados os resultados das análises.

É muito importante que uma vez adotado e num ambiente seguro, espere até cerca de 8 a 12 semanas para repetir o teste e assim considerar o seu gato livre de doença. A realização de um protocolo de testes adequado ao caso particular é crucial sempre que se introduz um novo gato.

Espero que o leitor se sinta agora mais esclarecido, mas é muito normal e até desejável que tenham dúvidas sobre este tema, pois até para nós médicos por vezes a interpretação dos testes é desafiante. Esclareça-se com o seu médico veterinário sobre o assunto e garanta que os seus gatos estão rastreados.  Até breve, Bons momentos felinos.

Quadro resumo:

FIV FeLV
Principal via de contágio Mordeduras (lutas) Lambeduras (grooming)
Prognóstico Reservado Grave
Resistência do vírus no meio ambiente Muito baixa Baixa
Risco para gatos coabitantes Moderado Elevado
Risco de contágio para o Homem e outros animais Nulo Nulo
Vacina disponível Não em Portugal Sim

 

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