Félicette, primeiro gato a ir para o espaço, ganhará estátua na França

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Essa semana, em que se comemora os 50 anos em que o homem pisou na lua pela primeira vez (20 de julho de 1969), nada mais justo que homenagear também a gatinha francesa Félicette.

Esta felina foi lançada da Argélia ao espaço há 56 anos, dentro de um foguete onde ficou totalmente imobilizada.

Félicette ficou totalmente imobilizada dentro do foguete

 

Félicette ganhará uma estátua em sua homenagem, ainda sem data marcada, na International Space University, fundada em 1987 na França. É uma instituição de ensino sem fins lucrativos focada na tecnologia aeroespacial.

Em outubro de 1963, Félicette ficou 15 minutos no espaço antes de retornar num paraquedas. Ela foi cobaia do programa espacial CERMA (Centre d’Etudes et de Recherches de Médecine Aérospatiale). Foram introduzidos eletrodos em seu cérebro para medir impulsos neurológicos durante o vôo.

A primeira “astrocat” não conseguiu a mesma fama de outros animais lançados ao espaço

 

Félicette voltou com vida e ficou famosa como a “astrocat”, mas depois dos holofotes que cobriram seu retorno bem-sucedido, ela passou seus últimos dois meses de vida num laboratório para ser minuciosamente estudada e, por fim, sacrificada.

Outros 13 gatos foram treinados junto com Félicette para essa missão, mas a meiga gatinha preta e branca foi a escolhida para o lançamento do foguete.

Félicette foi escolhida entre outros 13 gatos para embarcar no foguete

 

A homenagem à Félicette é uma ideia do diretor criativo da empresa Anomaly London, Matthew Sergey Guy, que ficou intrigado com o fato dessa gatinha ser totalmente esquecida, ao contrário de outros animais astronautas, como por exemplo a cadelinha Laika.

Matthew criou no final de 2017 um crowdfunding (financiamento coletivo) que arrecadou pouco mais de 43 mil euros para criar uma estátua em homenagem à Félicette na França.

Eu entrei em contato com ele para saber se o local da estátua já estava definido e, claro, se ele também é um amante de gatos (como nós!).

Ele gentilmente me respondeu:

“Obrigado pelo seu email e interesse no Kickstarter. A estátua será colocada no Salão do Pioneiro na International Space University. Tenho um gato preto chamado Pearl. Mas tenho medo de não ter nenhuma foto minha adequada com meu gato e estou ausente no trabalho no momento. Então não vou conseguir tirar uma foto antes do prazo final para publicação de seu artigo”.

Claro que, a título de curiosidade, pedi que ele me envie a foto de Pearl assim que for possível para ser publicada num próximo artigo dessa coluna.

Quanto ao Kickstarter, que ele menciona na resposta acima, é a campanha feita para arrecadar fundos para a estátua e que tem muitas informações, fotos e vídeos sobre o assunto. Veja em AQUI.

 

A estátua de Félicette

A peça em homenagem à “astrocat” está sendo desenvolvida por Gill Parker, uma das escultoras de animais mais respeitadas do mundo.

Ainda não há um design definitivo, mas já ficou decidido que será de um gato e um foguete em tamanho real, ou seja, de um metro e meio de altura e em bronze.

Alguns esboços já foram feitos conforme a foto abaixo:

O design da estátua de Félicette ainda não está definido, mas sabe-se que será de uma gata e um foguete

Mas como foi que Matthew teve essa ideia?

Na página do Kickstarter ele explica que seis anos atrás se deparou com uma toalha de mesa comemorando o 50 º aniversário do primeiro gato a ir para o espaço: “Não havia nome para o gato na toalha, nem se parecia com Félicette. Foi ilustrado em um estilo construtivista, o que naturalmente me levou a pensar que foram os russos que mandaram um gato para o espaço. Depois de pesquisar no Google, fiquei fascinado com a história de Félicette, como ela havia sido esquecida ao longo dos anos e parecia que algo grande deveria ser feito para corrigir esse erro”.

Algum tempo depois da missão francesa até houve uma pequena homenagem ao “primeiro gato astronauta” com o lançamento de selos comemorativos, mas usaram a foto de um gato bem mais peludo que Félicette e colocaram o nome de Felix.

Matthew conta que, segundo boatos da época, esse outro gato teria fugido do laboratório sendo substituído por Félicette, mas tudo não passou de uma grande confusão e que Felix nunca existiu.

O vídeo abaixo foi usado na campanha de Matthew para arrecadação de fundos para a estátua de Félicitte. É uma coletânea de imagens históricas mostrando inclusive o regresso da gatinha para a Terra. Imperdível!

Matthew ressalta ainda o sofrimento a que esses animais foram submetidos nos primórdios da chamada “corrida espacial” – colaboradores involuntários que passaram por treinamentos árduos morrendo antes, duramente ou depois das viagens espaciais e, sobre eles, também fiz uma pesquisa que pode ser vista abaixo:

Laika

Laika, a famosa cadelinha do espaço, morta poucas horas depois da decolagem

(Texto com informações do Portal Terra, BBC e Nasa)

O coração da cadelinha mais famosa enviada ao espaço em 1957, Laika, parou pouco depois da decolagem. De acordo com a BBC, especialistas afirmaram que Laika morreu devido a problemas de superaquecimento e ataque de pânico. Ela era uma cachorra de rua de Moscovo e foi escolhida entre dez outros cachorros por ser calma e sociável.

O ex-diretor do programa soviético para envio de animais ao espaço nos anos 50, Oleg Gazenlo, disse se arrepender de ter enviado Laika ao espaço, pois eles haviam condenado a cadela a uma morte certa.

Ela tinha eletrodos para monitorar seus sinais vitais. Os dados da telemetria mostraram que ela estava agitada, mas comia a ração. No entanto, segundo ele, os soviéticos nunca planejaram trazer Laika de volta. Eles providenciaram oxigênio suficiente para ela viver por apenas 10 dias enquanto o Sputinik 2 estava programado para ficar mais de 100 dias no espaço tendo se desintegrado no retorno à Terra em abril de 1958.

Na época, a notícia de que a cadela havia morrido queimada ao entrar na atmosfera provocou comoção e críticas. A verdade sobre quanto tempo ela sobreviveu só veio à tona em 2002.

Outros Cães

Cadelinhas Strelka, Chermuska, Zvezdochka e Belka que sobreviveram

Dezik e Tsygan foram as primeiras cadelas a sobreviverem a uma viagem espacial em 1951. Dezik foi submetida a um novo vôo no mesmo ano e morreu na operação. Tsygan foi adotada logo depois do acidente por um físico

Bars e Lusichka foram outras duas cadelinhas. Morreram durante o lançamento de um foguete russo em 1960

Dezik e Tygan foram alguns dos animais em missões espaciais

Belka e Strelka voaram a bordo do Sputinik 5 junto com 40 camundongos em 1960. Sobreviveram. Strelka teve seis filhotes sendo um entregue ao presidente Kennedy

Chernushka e Zvezdochka: em 1961 a cadelinha Chermuska sobreviveu dentro do Sputinik 9 na companhia de ratos e um porco da Guiné. No mesmo ano Zvezdochka também voltou de um vôo com vida

Pchelka e Mushka morreram dentro do Sputinik 6 em 1960

Verterok e Ugolyok foi a dupla canina que ficou mais tempo no espaço, num total de 22 dias, e sobreviveu, em 1966

Macacos no Espaço

Em 1951 Yorick foi o primeiro macaco a sobreviver a um vôo espacial que partiu do México

Patrícia e Mike eram dois macacos filipinos que retornaram do espaço com vida em 1952. Patrícia morreu dois anos depois de causas naturais e Mike em 1967 no zoológico onde passou a viver nos EUA

O Gordo foi um macaco-esquilo lançado ao espaço pelos EUA em 1958. Na volta à Terra naufragou no mar

Em 1961, nos EUA, o chimpazé Ham realizou um vôo considerado de sucesso e que encorajou o envio de astronautas humanos para o espaço. Após o vôo, Ham ganhou o triste castigo de viver em zoológicos. Morreu do coração.

O simpático chimpanzé Ham passou o resto da vida em zoológicos

Em 1966, um macaco-Rhesus de nome Sam participou do programa americano Little Joe criado para testar efeitos das altas acelerações. Voltou com vida e, no retorno, abraçou entusiasmado sua companheira de laboratório, Miss Sam, que também participou de testes espaciais

O macaco Sam que abraço sua companheira ao voltar para a Terra

Corria o ano de 1961, nos EUA. O chimpanzé Enos fez duas órbitas ao redor da Terra e demonstrou uma inteligência fantástica quando descobriu sozinho como lidar com os comandos que, por um erro técnico, começaram a executar tarefas inversas as programadas. Morreu pouco tempo depois de seu regresso

Homenagem póstuma

Miss Baker que recebia milhares de cartas de crianças

O macaco aranha batizado de Able e Miss Baker, uma macaca Rhesus, estiveram juntos, em 1959, a bordo de um míssil. Ficaram no espaço por 15 minutos. Voltaram com vida, mas Able morreu alguns dias depois numa cirurgia para extrair um eletrodo.

Miss Baker morreu de insuficiência renal, em 1984, aos 27 anos. Ela passou 25 anos como atração do museu U.S. Space and Rocket Center em Huntsville, Alabama (EUA) onde recebia milhares de cartas de crianças encantadas com sua história retratada em  livro infantil.

Seu enterro em 1984 contou com mais de 300 pessoas. O corpo de Miss Baker está exposto no Smithsonian Institute, em Washington, na mesma cápsula usada na viagem.

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Muito obrigada e até semana que vem!

Fátima ChuEcco

Fátima Chuecco é uma jornalista brasileira especializada em matérias sobre animais e apaixonada por gatos. Mora em SP com suas gatas Dianna e Rebecca Selvagem.
Fátima ChuEcco
Author: Fátima ChuEcco

Fátima Chuecco é uma jornalista brasileira especializada em matérias sobre animais e apaixonada por gatos. Mora em SP com suas gatas Dianna e Rebecca Selvagem.

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18 Comentários

  1. Muito merecida a estátua da gatinha! Uma verdadeira heroína que contribuiu com a ciência! Sou totalmente contra o uso de qualquer animal como cobaia, mas já que é um fato consumado, a estátua é uma justa homenagem!

    • Hellen… sem dúvida Félicette e centenas de outros animais sofreram e talvez ainda sofram com as missões espaciais. Não é justo serem usados, mas é superjusta a homenagem a essa gatinha.

  2. Muita dozinha dos bichinhos usados como cobaias pra essas loucuras espaciais sou totalmente contra a qualquer experiência com qualquer tipo de animal. Mais enfim…. acontecem . Bom saber mais sobre esse mundo animal ótima matéria 👏

  3. Não gosto da ideia de que os animais devem ser sacrificados para testar a “loucura” dos homens. Manda humanos e depois sacrifica também, afinal ele não servirá mais….

    • Aparecida… tá certíssima… é uma judiação e a matéria tentou mostrar isso mesmo… que é errado mandar animais pro espaço… e tb por isso mesmo a Félicette merece essa homenagem… afinal, perdeu a vida e sofreu nessas experiências

  4. Ai é muito triste pensar como tantos animais sofrem em prol de pesquisas e projetos pelo mundo…. não sabia que haviam gatos e tantos outros treinados para irem ao espaço…..muito merecido a homenagem para esse gatinho…. deveria ter um memorial para todos que participaram de pesquisa em prol da humanidade… parabéns pela matéria….

  5. Félicitte super merece essa homenagem. Reconhecimento tardio mas muito honroso. Dói muito saber que os animais estão sempre a mercê da crueldade e do egoísmo humano.

    • Soraia… exatamente isso… ela merece uma homenagem que, inclusive, serve para chamar a atenção das pessoas para essa questão de cobaias nas missões espaciais. Fica como um símbolo de animais que involuntariamente e com muito sofrimento deram suas vidas nessas experiências. Um tempo atrás escrevi sobre a estátua de um cão que foi brutalmente mantido como cobaia numa universidade. A estátua tocou o sentimento de gerações futuras de professores e alunos, e isso fez com que a universidade abolisse o uso de cobaias em seu ensino.

  6. Brilhante matéria e ter conseguido falar com o autor da homenagem mostra a excelência do seu trabalho como joranlista! Infelizmente, mais uma prova de que o ser humano nunca teve compaixão nem respeito pelos animais não-humanos. Casos como os citados, e especialmente da Felicitte, nos entristecem e nos fortalecem na luta pelos direitos dos animais não-humanos e pela abolição animal!

  7. Como sempre suas matérias são ótimas Fátima e concordo com todos os comentários que se opõem ao uso de animais seja em pesquisas ou em qualquer outra finalidade que os explorem e os matem. Nós não temos esse direito! Os homens brincam de Deus e subjugam raças animais e vegetais, mas os efeitos nefastos dessa “brincadeira” já estão sendo sentidos em todo o Planeta. Jamais soube de gatos e outros animais, exceto a Laika, que foram enviados ao espaço, então, sim, essa gatinha merece muito uma estátua para ser lembrada.

  8. Adorei a sua matéria!! Já havia lido uma reportagem da gatinha Felicitte e a estátua que está sendo planejada para ela, mas a sua reportagem e muito mais completa e respondeu questões e dúvidas em relação aos animais usados nessas pesquisas.É muito triste esse descaso e maldade para com os animaizinhos.Parabéns pela reportagem!!Muito interessante!!

  9. A matéria está ótima mas eu realmente não me orgulho dos animais sendo meras cobaias. Eu não acho justo submeter vidas tão inocentes a riscos tão extremos. Mas felizmente hoje não tem mais.

  10. Excelente matéria! IMPORTANTE ficar atento ao passado e conseguir conscientizar o presente e quem sabe o futuro possa ser sempre um pouco mais iluminado . Minha gratidão a todos os seres que infelizmente tiveram suas vidas tratadas tão desrespeitosamente .

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