Gatos que vivem em parques: castrar e cuidar é a melhor solução

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Eles são conhecidos como “Os Gatos do Museu do Ipiranga” e vivem no Parque Independência, em São Paulo (Brasil).

Alguns, de tão bonitos ou exóticos, parecem verdadeiras pinturas, mas convém ressaltar que a maioria deles não nasceu no Parque, sendo na verdade fruto do abandono – uma prática que tem sido combatida em todo o mundo por meio de campanhas para consciencializar a população e, especialmente, as futuras gerações.

Gato do parque Independência arquivo pessoal

“Eles são castrados, vacinados, vermifugados, alimentados e sempre que possível doados. Todos recebem um nome. Já doamos mais de 100 nos últimos anos. Um grupo de voluntários emprega os próprios recursos no cuidado com esses gatos que, na verdade, não são selvagens.

São gatos domésticos abandonados no Parque sem dó nem piedade. O maior problema não está nos gatos, mas na irresponsabilidade das pessoas”, conta a bióloga Francielli Vergino que durante oito anos participou do grupo que acompanha a colônia felina.

Gato do parque Independência arquivo pessoal

O método aplicado aos gatos do Parque Independência, conhecido como CED – Captura, Esterilização e Devolução, tem se repetido cada vez mais nas maiores cidades do mundo como Nova York, Paris, Roma e Lisboa.

Isso porque essa é a forma de controle populacional de felinos de vida livre ou em situação de rua mais ética, económica para os cofres públicos e, acima de tudo, realmente eficaz tanto do ponto de vista de saúde pública quanto para o bem-estar dos animais.

Gato do parque Independência arquivo pessoal

Eliminar colónias de gatos por meio de eutanásia, como ainda é feito em muitos lugares, não resolve o problema, aliás, só piora. Isso porque outra colónia logo se forma no local sem estar castrada e vacinada.

É o chamado “efeito estufa”. Eliminar os gatos corresponde a um pensamento arcaico que, além de ineficaz, já não tem espaço numa sociedade que cada vez mais preza pela proteção dos animais.

O exemplo de Roma

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Alley Cat Rome Stray – Photo by Pixabay

Mas apenas adotar o método de CED não é suficiente.  Os últimos relatórios internacionais apontam que esse método deve ser acompanhado por uma forte política pública contra o abandono, muitas vezes reforçada também com a ajuda de câmeras e multas severas para quem abandona animais.

Num estudo realizado com 103 colónias de gatos em Roma, na Itália, onde houve a castração e devolução ao local de origem de cerca de 8 mil felinos em 10 anos, constatou-se que em paralelo a esse trabalho, as colónias cresceram em torno de 21% por conta de novos abandonos.

Gato do parque Independência arquivo pessoal

A fim de tornar as colónias mais estáveis, foram instaladas câmaras e programas de consciencialização, desde 2000, nos principais pontos turísticos que os gatos escolheram para viver.

O governo italiano assimilou que, mesmo com esse residual de 21% de crescimento registado ao longo dos anos, ainda é mais seguro, tanto para os animais quanto para a população humana, que os gatos sejam castrados pelos órgãos públicos e tratados pelos voluntários. Afinal, com a retirada dos felinos, novas colónias sem tratamento veterinário se formariam e se reproduziriam rapidamente.

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Um dos gatos no Largo do Torre Argentina, em Roma (Foto: RomanCats)

American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), importante instituição internacional de proteção animal, considera esse procedimento como o mais ético, efetivo e economicamente viável para controle de gatos em parques e espaços públicos. Vale lembrar que os gatos não se “materializaram” nas cidades. Eles foram introduzidos pelo homem.

Aliás, os gatos sempre foram recrutados para manter os ratos afastados e é deles a vitória contra a peste bubônica que matou 25 milhões de pessoas na Europa. O que o homem não conseguiu com medicamentos durante anos, os gatos conseguiram em pouco tempo apenas perambulando pelas ruas.

Gatos e pássaros

Pássaro, Pardal, Bagas, Filiais, Sentado

Infelizmente, ainda existe uma crença de que os gatos afetam a população de pássaros, mas os felinos nascidos nas áreas urbanas perdem muito de seu instinto, habilidade e interesse para a caça.

Além disso, gato alimentado não sai caçando conforme assinala Francielli: “Os gatos do museu são bem alimentados com ração. Eles comem e dormem. É isso que eles fazem”.

E caso os pássaros estejam sumindo do Parque Independência – o que nunca foi provado – e de outros parques, a bióloga explica que provavelmente não é por causa dos gatos, mas da escassez de comida e água. “Quando as poucas árvores frutíferas dão jacas e abacates no Parque Independência, por exemplo, os munícipes levam tudo embora. Os pássaros tendem a migrar para áreas onde o alimento é mais abundante. E não tem fonte de água, por isso, é comum vermos os passarinhos se banhando nos potes de água dos gatos”.

Assim como os gatos, os saguis (macacos de pequeno porte bem comuns no Brasil) também foram sendo abandonados no Parque Independência e hoje são bem numerosos. Eles também disputam os alimentos com os pássaros e predam seus ovos e filhotes.

Um gato alimentado não sai para caçar conforme assinala Francielli (Foto: Gato do parque Independência arquivo pessoal)

Por isso a bióloga ressalta: “Nas florestas esses mesmos pássaros contam com um número muito maior de predadores como répteis e aves como gaviões, falcões e corujas. No Parque tem ainda os macaquinhos na lista de predadores. Por isso tudo, caso a população de pássaros esteja menor, não é culpa dos gatos!”.

O gato não é inimigo da fauna, mas integrante dela – e estamos falando de uma fauna urbana, ainda que os indivíduos sejam descendentes da silvestre. É preciso lembrar que animais urbanos desenvolvem novos hábitos alimentares e de comportamento, às vezes bem distintos dos indivíduos de sua espécie que vivem na floresta. Os mecanismos de defesa, confecção de ninho e busca de alimento dos passarinhos que habitam o Museu do Ipiranga e de outros parques urbanos não são os mesmos averiguados nas matas.

Gatos, cães e pássaros se adaptaram aos espaços das cidades desenvolvendo novas técnicas de sobrevivência e. especialmente, convivência. No caso dos gatos, a busca de alimento como restos de comida ou ração ofertada por humanos substituiu a caça. O maior inimigo e caçador da fauna urbana é o ser “desumano” que desmata, acaba com as árvores também nas cidades e polui. Portanto, cabe ao poder público combater o abandono de gatos e investir na castração em massa, ajudando assim os voluntários em sua árdua tarefa de controle da população felina.

Envenenamento em massa nas ilhas

Ilhas brasileiras e muitas pelo planeta já tentaram se livrar de populações de gatos espalhando iscas envenenadas. Aliás, é exatamente isso que está se pretendendo fazer na Austrália para conter a população felina – assunto que tem gerado polémica e revolta pelo mundo afora.

O argumento é que os gatos estão acabando com a população de aves mas, na verdade, as mesmas iscas que matam de forma dolorosa e lenta os gatos, matam também as aves que bicam as iscas julgando ser alimento. Será que não estão colocando a culpa nos gatos, mas na verdade a estupidez humana é a responsável pelo sumiço de muitos pássaros nativos de ilhas e outras áreas de preservação que estão sendo desmatadas e tendo suas nascentes poluídas? O gato não é o vilão

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Gato Paçoca

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Fátima ChuEcco

Fátima Chuecco é uma jornalista brasileira especializada em matérias sobre animais e apaixonada por gatos. Mora em SP com suas gatas Dianna e Rebecca Selvagem.
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Author: Fátima ChuEcco

Fátima Chuecco é uma jornalista brasileira especializada em matérias sobre animais e apaixonada por gatos. Mora em SP com suas gatas Dianna e Rebecca Selvagem.

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14 Comentários

  1. Abandonar animais, realmente deveria ser tratado como um crime hediondo! Judiação abandonar seres tão indefesos! Amo tanto meus gatinhos! Quero muito visitar o parque para levar carinho pra esses gatinhos! Parabéns aos voluntários! Ótima matéria Fátima!

  2. Amei a matéria, Fátima. As pessoas precisam se conscientizar de que os felinos precisam de cuidado e proteção.

  3. Sou frequentadora assídua do parque da independência….. posso afirmar que os gatos são muito bem cuidados pelos protetores…. os gatos são lindos gordinhos é muito saudáveis…. convivem em harmonia com as pessoas que lá frequentam…. fico admirada e muito agradecida pela forma como eles vivem….. seria perfeito se todos os parques tivessem anjos protetores iguais aos do parque do Ipiranga….. parabéns pela matéria e divulgação dessa ação maravilhosa….

    • Rose… obrigada… os gatos do Museu são mesmo lindos… e graças aos voluntários… quem dera orgãos públicos tb ajudassem nessa luta diária para manter os gatos assim lindos e saudáveis

  4. Adorei a matéria! Os protetores sofrem com esse abandono de animais e a população não tem noção que também envolve a saúde pública. É muito difícil arrumar um lar para gato adulto e acostumado com a liberdade e creio que castrar e devolver é a melhor forma do controle da população e do bem estar do animal. Precisamos muito é de mais informação para a sociedade!

  5. Tenho uma amiga que é uma das protetoras que alimenta e cuida dos gatinhos do parque do Ipiranga. Graças a ela e outros, esses peludinhos são bem cuidados.
    Infelizmente continuam abandonando animais lá.
    A matéria está excelente. Parabéns pelo texto.

  6. Só quem tem ou já teve um animalzinho sabe o amor envolvido. É um filho. É um ser inocente que só conta com vc. Não tem mais ninguém no mundo. Eu fico muito desesperada com esses bichinhos em situação de rua. Estou sempre ajudando, tem algumas cuidadoras aqui em SP que eu ajudo financeiramente e algumas associações espalhadas pelo Brasil. Mas não é só o dinheiro que faz diferença. Quem já visitou estes animais sabe a carência deles. As vezes só visitar e fazer carinho já é uma ajuda e tanto.

    • Mary… é verdade… comida e água é sobrevivência… mas carinho tb faz uma falta enorme e, aliás, carinho até ajuda alguns bichinhos superarem situações trágicas… obrigada pelo feedback

  7. Se todos os bichanos foram tratados como são no museu do Ipiranga seria uma alegria frequento semanalmente o parque e só vejo gatinhos sadios e lindos nem sempre foi assim mais já faz um tempo que recebem água comida e muito carinho das pessoas que passam
    Por lá

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