O coronavírus e os nossos cães e gatos

Verifica-se uma preocupação crescente por parte dos tutores acerca da possibilidade dos seus animais de estimação poderem ser infetados por este novo vírus.

Por outro lado, também se levantam dúvidas sobre se, num contexto de pandemia, a convivência próxima com os nossos animais constitui um perigo acrescido para a saúde publica.

Espero aqui ajudar a esclarecer dúvidas, mas para início de conversa antecipo que a convivência com os nossos animais não é um fator de risco.

Mas afinal o que significa coronavírus?

Os vírus são organismos estruturalmente simples que precisam das células dos seus hospedeiros para se multiplicarem.

Coronavírus é uma família de vírus que podem infetar animais e seres humanos.

O nome Coronavírus vem dos picos “tipo coroa” existentes na sua superfície.

Coronavírus é transmissível aos animais?

Embora coronavírus possam infetar o Homem e os animais, a maioria não tem potencial zoonótico. Ou seja, os coronavírus que infetam seres humanos não são por norma os mesmos que afetam os nossos animais e vice-versa.

Isto significa que a maioria destes vírus são espécie-específicos, ou seja, infetam apenas e preferencialmente uma determinada espécie.

No entanto, em circunstâncias particulares os vírus podem sofrer mutações e pode ocorrer o que em linguagem comum poderemos denominar de “salto de espécie”.

Quantos tipos de Coronavírus existem?

Existem inúmeros tipos e a grande maioria deles não é causador de doenças graves.

No Homem, existem essencialmente os coronavírus associados às vulgares síndromes gripais. Mas mais recentemente têm surgido estirpes mais agressivas de coronavírus associadas a situações de epidemia.

No início de março de 2020, o número de casos de coronavirus, a nível mundial, totalizou 88.257 infetados, 2.966 mortos, em 66 países.

Foi o caso do coronavírus associado a SARS (Sever Acute Respiratory Syndrome – Síndrome respiratório agudo grave) que surgiu na China em 2002, 10 anos mais tarde do vírus MERS (Middle East Respiratory Syndrome – Síndrome respiratória do Médio Oriente).

E agora, desde dezembro de 2019, do SARS- CoV- 2 que provoca a doença COVID-19 e teve como epicentro a cidade de Wuhan na China.

No cão também é bem conhecido pelo menos um tipo de coronavírus associado a alterações gastrointestinais.

Já os gatos são um verdadeiro tratado de Coronavírus, sendo muito frequentemente portadores de coronavírus que, no entanto, não lhes causam doença na maioria das vezes.

Mas estes coronavírus que podem infetar cães e gatos nada tem a ver com o SARS-CoV.

Mas este novo Coronavírus vem dos animais?

Cientistas chineses suspeitam existir uma ligação entre o Pangolim e a propagação do Coronavirus

Os estudos epidemiológicos que investigam a origem e a transmissão das doenças, indicam que parece existir uma associação entre os primeiros casos de COVID-19 e um mercado que vende animais vivos de várias espécies.

Pensa-se que tal como no SARS e no MERS os morcegos possam ser reservatórios e existirem outros animais associados que estabeleçam uma ponte entre este reservatório e o Homem.

O SARS (último caso em 2004) correlacionou-se com a transmissão pela civeta africa também conhecida como gato de algália (embora nada seja um felino). O MERS está associado a dromedários e camelos.

No que respeita ao novo coronavírus, especula-se que este possa estar associado ao pangolim. Este mamífero escamoso é considerado uma iguaria na China e em outras partes do mundo. As escamas do animal são feitas de queratina e são utilizadas na medicina tradicional, o que fez do pangolim uma das espécies mais traficadas.

E os nossos animais de estimação?

Apesar de que, como vimos, os coronavírus que mais gravemente afetam o Homem tenham tido origem em animais, isso não significa que a doença seja uma zoonose.

Apenas significa que existiu uma mutação do vírus que fez com que “saltasse a barreira da espécie”.

Assim em termos práticos, o que interessa reter é que à luz dos conhecimentos atuais o SARS-CoV-2 responsável pela doença emergente COVID-19 não é transmissível aos nossos cães e gatos.

E o contrário também é verdade os nossos cães e gatos não são portadores de SARS-CoV-2, logo não constituem um perigo para nós.

No entanto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Center of Disease Control (CDC) recomendam que os cuidados básicos de lavagem frequente de mãos também se apliquem após a manipulação mais estreita de animais.

No cão também é bem conhecido pelo menos um tipo de coronavírus associado a alterações gastrointestinais.

Por outro lado – e porque, como já vimos, a possibilidade dos vírus atravessarem a barreira da espécie é frequente e porque este novo vírus ainda não é bem conhecido da comunidade cientifica – é recomendado que pessoas infetadas ou suspeitas evitem o contato próximo com os seus animais de companhia.

E que, tal como devem usar máscara quando próximas de outras pessoas, o façam também quando próximas dos seus animais.

Ou seja, é só pensar no seu gato/cão como um membro da família.

E para refletirmos…

Por último gostava que, independentemente dos conhecimentos mais ou menos profundos nesta área que o leitor tenha, refletíssemos um pouco sobre esta temática.

Epidemias que recentemente afetaram o mundo (como a gripe das aves ou a gripe suína) estão frequentemente relacionadas com uma pressão exagerada na criação de animais.

Deveremos todos repensar a produção de animais para consumo humano e como o estamos a fazer. Cada um de nós como consumidor tem um voto na matéria no modo como faz as suas escolhas. A culpa não está só nos mercados asiáticos.

A civeta africana associada à primeira pandemia do seculo XXI (SARS) é um animal selvagem. Mas devido ao fato de a sua carne ser muito apreciada é comercializada profusamente em condições desumanas.

Todos os anos 100.000 pangolins, possivelmente associados a esta nova pandemia de COVID-19, são comercializados ilegalmente.

Foi quebrado o respeito pelas barreiras naturais, esta é apenas uma das consequências.

A regulamentação do comércio de animais selvagens é urgente não só como garantia da biodiversidade, mas também pelos riscos para a saúde pública que a recente história da epidemiologia das doenças infeciosas nos ensina.

Maria João Dinis da Fonseca (Grupo Hospital do Gato)
Author: Maria João Dinis da Fonseca (Grupo Hospital do Gato)

Diretora Clìnica Hospital do Gato DVM, Mestre em Doenças Infecciosas pela FML MANZCVS (Member of the Australian and New Zealand College of Veterinary Scientists)

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4 Comentários

  1. falta comentar um pouco sobre como é feita a limpeza do animal, cães por exemplo, que precisam ir a rua fazer xixi e cocô. Logo pisam no chão e se esfregam em tudo, fucinho na grama, onde humanos cospem etc. Preocupação devido a longa vida do virus corona em superfícies.
    Lavar a patinha com alcool ou sabão? Afinal eles andam em casa, sobem no sofá etc

  2. Caro Alan
    Obrigada pelo comentário. No caso dos gatos, o melhor é mesmo ficarem em casa. No caso dos cães lavar as patinhas com água e sabão e secar bem a seguir. Os passeios também devem serem mais curtos. As nossas mãos lavadas assim que chegamos a casa e depois de limpar o cão. A trela e coleira ficam na zona “suja” da casa. Onde trocarem de roupa e sapatos fica lá a trela e coleira. Na rua ter o cuidado para “estranhos” não fazerem festas ao cão.

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