“Um fim digno ao (corpo) do animal”

A maior demonstração de amor que podemos dar a um animal de companhia e uma retribuição por toda a dedicação que nos deram em vida, é sem dúvida, a nossa presença no momento da sua partida e um destino digno ao seu corpo após a morte. Iniciamos aqui um ciclo de artigos da Advogada e autora Cristina Mascarenhas.

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Cristina Mascarenhas

Como já devem saber, considero que, nas nossas famílias (deveria ser em todas), o animal é um membro da família, e não uma simples coisa. E assim deverá ser tratado até à sua morte.

Ou seja, como membro da família que é, o animal terá, até à sua morte, de ser tratado com dignidade. E isso leva-nos a reflectir o que fazer quando o nosso animal adoece e acaba por morrer.

Os cuidadores, que sentem que o seu animal é um membro da família, querem, em todas as ocasiões, proporcionar o bem-estar ao seu companheiro, nem que seja na morte.

Creia-se ou não, existe uma ligação extremamente sentimental entre humanos e animais, digamos que os animais fazem muita companhia e são uma presença que está sempre ali, e como muitas vezes se diz, eles não reclamam se chegarmos tarde ou se hoje estamos com menos paciência.

Como podemos ser indiferentes ao carinho, dedicação que os nossos companheiros têm por nós? Não podemos!

Na realidade “reclamam” a nossa atenção, o nosso carinho, mas nunca nos deixam e estão sempre disponíveis para estarem ao nosso lado. Mesmo nos momentos que eles sabem que estamos menos bem, estão ao nosso colo ou junto de nós.

Não há dia que chego a casa e que os meus cães não me recebam com um grande entusiasmo, só querem dizer-me “que bom, voltaste!”. Mesmo as minhas galinhas, de estimação claro (!), todas as manhãs sabem que vou cuidar delas e quando saio para o quintal reclamam logo a minha atenção, porque sabem que lhes vou abrir a porta e podem andar por todo o quintal.

Mais, sabem que a seguir de cuidar do seu espaço, vem a comida fresquinha e miminhos.

Os meus gatos estão sempre ao meu lado, esteja eu a fazer o que estiver.

Quando estou a trabalhar no computador, ou estão em junto de mim, no colo, ou chegam mesmo a estar em cima do meu braço que levo ao rato. Por vezes, quando estamos doentes, ou menos bem, e estamos deitados ou enrolados no sofá, os gatos aninham-se em nós a dizer “estou sempre aqui, para tudo o que tu precisares”.

Como podemos ser indiferentes a este carinho, a esta dedicação que os nossos companheiros têm por nós? Não podemos!

Quando um animal chega ao fim da sua vida, seja por velhice, doença prolongada ou uma fatalidade súbita, o seu cuidador sente-se desamparado, tendo de tomar decisões, que normalmente não está à espera, ou que nunca quis pensar. Atrevo-me a dizer que muitas vezes não quis pensar, porque os cuidadores desejam sempre que o seu amado animal seja eterno.

E que um dos direitos que o animal detém, após a sua morte, é a ter um fim com dignidade.

Nestas circunstâncias, e como cuidadora que sou há mais de quatro décadas, posso afirmar que é muito doloroso, e muitas vezes temos de decidir por termo à vida dos nossos queridos. É o melhor para eles, dizem-nos os veterinários.

E temos de respeitar a opinião dos entendidos na saúde dos animais. Desculpem-me quem não concorda comigo, mas sou uma defensora da eutanásia, e se os nossos queridos animais estão a sofrer, e nada mais há que a medicina possa fazer por eles, então que se acabe com o sofrimento, em meu entender quem muito prolonga a vida de um animal em sofrimento, está a penitencia-lo e atrevo-me a dizer que um pouco egoísta e a desejar mante-lo por perto, não o deixando partir e a deixar a agonia que se encontra. Bem, conheço relatos, de veterinários, que certos donos (se assim se podem chamar) desejam por fim à vida dos animais, porque simplesmente já não lhes interessa cuidar mais deles.

E, claro está, que não defendo esta atitude de descartar, seja de que forma for um animal!

Chegados aqui, afirmo que se a família actual é multiespécies, e todos os membros viverem em união familiar e comunhão, distinguindo, assim, a todo o núcleo familiar de direitos e também deveres. E que um dos direitos que o animal detém, após a sua morte, é a ter um fim com dignidade. Creio, que hoje em dia, é solicitado ao cuidador, como um dever, para providenciar um fim digno ao seu animal.

E se legalmente o cuidador tem o dever de cuidar do bem-estar do animal, então esse bem-estar vai até ao fim do ciclo da vida, que em meu entender inclui o enterro ou cremação.

Quando um animal chega ao fim da sua vida, o seu cuidador sente-se desamparado, tendo de tomar decisões, que normalmente não está à espera, ou que nunca quis pensar.

Como refere, a Declaração Universal dos Direitos do Animal, no artigo 13º, um animal morto deve ser tratado com respeito, os animais após a sua morte devem ser tratados com a dignidade que merece qualquer animal, humano ou não humano. O que corrobora o que tenho vindo a defender.

Em resumo, estamos aqui a tratar de dois assuntos, para o fim digno de um animal, ou seja, enquanto o mesmo está vivo, mas no estado terminal, em que se defende que lhe seja reduzida o seu sofrimento e que o cuidador tenha coragem de pensar na dor que o animal sente e menos na mágoa e tristeza que era ter pela perda do seu animal. E que, caso o veterinário assim recomende, e sempre no interesse do animal e no menor sofrimento deste, que se termine com este padecer, recorrendo assim a eutanásia.

Defendo, ainda, e porque inúmeros veterinários ou auxiliares me relatam o que é recorrente nas clínicas, que os cuidadores fiquem junto aos seus animais até, pelo menos, o início do fim.

Quando é dada a primeira injecção e os animais “adormecem tranquilos”, é fundamental para o animal, mesmo no seu fim, sentir a presença de quem sempre amou, do seu cuidador. Sei que custa, porque já o fiz, mas custará muito mais aos nossos queridos animais, “adormecerem sozinhos”… Por muito que doa, é digno e carinhoso que estejamos de “mãos dadas” com os nossos, neste momento de partida. Depois podemos chorar, gritar, chamar nomes ao mundo, mas até eles partirem, para o céu de todos os animais, não os deixamos sozinhos num momento tão triste e difícil, também para eles.

E por outro lado, em que o cuidador, já com o pesar da perda e em grande sofrimento, tome uma decisão: que destino dar ao corpo do seu querido animal.

Um cuidador, após perder o seu animal, terá de decidir se entrega o corpo ao “canil municipal” para incineração colectiva, mediante o pagamento de uma taxa, que varia entre consoante o município e o tipo de animal, que poderá ser entre os 19 e os 75 euros, pelo que aporei.

Caso o animal venha a falecer na clínica veterinária, o cuidador poderá deixar o corpo do animal na clínica, onde pagará também um valor por esse serviço, e o animal será também encaminhado para a inieneração colectiva.

E se legalmente o cuidador tem o dever de cuidar do bem-estar do animal, então esse bem-estar vai até ao fim do ciclo da vida, que em meu entender inclui o enterro ou cremação.

Em nenhum dos destinos atrás referidos, o cuidador poderá ficar junto ao corpo ou levar depois as cinzas com ele.

Como já referenciado, os “novos cuidadores” procuram que os animais, após a sua morte, tenham um destino mais íntegro, do que a incineração no canil com tantos outros, numa “vala comum”.

Por este motivo, as funerárias de animais têm vindo a crescer e a ser cada vez mais utilizadas para os cuidadores, por regra, cremarem o seu animal individualmente. Como se pode testemunhar nos sites das diversas funerárias, há infinitas possibilidades, principalmente no que diz respeito às urnas.

Poderá ser feito um simples serviço de cremação, mas poderá existir um serviço mais completo que contempla a recolha do animal, um cuidado “aprimorado”, sendo colocado numa cama, como se a dormir estivesse, um velório (para a família) com oferta de café, águas e flores na sala. E é assim que a sua família humana, se despede do seu animal.

 

Este serviço, nos dias de hoje, é tão procurado que o cuidador tem de esperar cerca de cinco dias para o seu animal ser cremado e receber a urna com as cinzas.
Na verdade, em pouco difere da cerimónia fúnebre dos humanos, estando a maior diferença na aceitação. Reconheço que muitas pessoas pensam que é um completo absurdo este ritual para os animais. Mas afirmo que cada pessoa tem os seus sentimentos, a sua dor, e as suas crenças que devem ser respeitadas.

Por último, existe a possibilidade de enterrar o animal, tal como se faz com os humanos. Indico dois cemitérios para animais de companhia em Portugal. O do Jardim Zoológico de Lisboa que existe desde 1934 e o do Município de Lagos inaugurado em Setembro de 2017.

No Jardim Zoológico de Lisboa é possível enterrar qualquer animal, desde que não seja demasiado grande (por exemplo, um cavalo não seria possível enterrar, porque o espaço destinado ao enterramento tem uma medida média). Um enterro custa 132 euros, mas o cuidador tem de trazer a urna, e terá de pagar a renovação anual, no valor de 94 euros que, se não for paga, os ossos dos animais serão levantados.

As urnas do Pet Memorial são personalizadas com réplicas de cada espécie e raça de animal (Foto: Pet Memorial)

O cemitério de Lagos, foi muito bem acolhido pela população conforme me disse a responsável, e tem muita procura, mas só é destinado aos munícipes daquele concelho. Aceitam qualquer tipo de animal desde que tenha até 70Kg. O preço varia desde os 67 aos 84 euros, consoante o peso/tamanho do animal. Esse valor dá direito ao enterro e a permanecer sepultado por três anos, que poderá ser acrescido de mais dois anos a pedido do cuidador e mediante um pagamento.

Existe, contudo, uma exigência que faz alguns munícipes desistirem do enterro naquele cemitério, que é o facto de ser necessário uma urna “biológica” (em regra basta ser de pura madeira), de um preço elevado e fabricação demorada, o que para muitos lacobrigenses são valores que não podem pagar e tempo que não podem esperar, pois um enterro tem de ser realizado poucas horas/dias, após a morte do animal.

Bem, parece-me que existem aqui várias alternativas, para o fim digno para um animal, e que ouso dizer que (já) estamos a alterar alguns comportamentos. E isso torna o cuidador mais consciente e preocupado em dar um fim digno ao seu animal.

E que a maior demonstração de amor que lhes podemos dar, e uma retribuição por toda a dedicação que nos deram em vida, é sem dúvida, a nossa presença no momento da sua partida e um destino digno ao seu corpo após a morte.

Até breve.

Por eles, por nós e pela nossa dor. E sempre, por respeito a eles!

 

Author: Cristina Mascarenhas

Advogada; Pós-graduada em Direito dos Animais e em Direito da Criança e da Família; Autora do livro Chorei em Silêncio - Família Multiespécie/Direito ao Luto após a perda de um animal e ao respeito na dor.

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